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Tag Archives: Zinn

Esta entrevista foi realizada por Wajahat Ali em 2008, antes da eleição de Barak Obama.  O texto em inglês pode ser lido no blog Goatmilk.

ALI: Suas experiências e atos de desobediência civil no Colégio de Spelman são, a esta altura, muito conhecidos. Entretanto, no século XXI, pode-se ver observar o corpo estudantil de muitos campi de faculdades liberais e ver que o protesto vivaz e a consciência foram substituídos pela apatia e o materialismo. Onde esse espírito de luta foi parar? Você se pronunciou contra o “desencorajamento” na fala de abertura do ano de 2005 na Universidade de Spelman – e quanto a agora?

ZINN: O que você descreve como a diferença entre os anos sessenta e agora nos campi é verdade, mas eu não iria longe demais com isso. Há grupos em campi por todo o país trabalhando contra a guerra, mas são pequenos até agora. Lembre-se, a escala do envolvimento no Vietnã era maior – 500 mil soldados contra 130 mil no Iraque. Após cinco anos de Vietnã havia 30 mil americanos mortos, ao passo que hoje temos 4 mil mortos. O alistamento obrigatório ameaçava os jovens, hoje não. Há maior controle pelo establishment da mídia hoje em dia, que não está mostrando os horrores infligidos no povo do Iraque assim como a mídia norte-americana começou a mostrar atrocidades como o massacre de My Lai. No caso do movimento contra a Guerra do Vietnã, houve a radicalização imediata da experiência do Movimento dos Direitos Civis pela igualdade racial, cuja energia e indignação levou adiante o movimento estudantil contra a Guerra do Vietnã. Nenhum influxo comparável existe hoje. E sim, há mais materialismo, mais insegurança econômica para os jovens que vão à universidade – custos enormes de taxas escolares pressionam os estudantes a se concentrarem só nos estudos e irem bem na escola.

ALI: Você esteve profundamente envolvido no Movimento dos Direitos Civis que lidou não apenas com igualdade racial, mas também um re-exame do política estrangeira dos Estados Unidos e da retirada da brutal Guerra do Vietnã. Aqui estamos em 2008 com uma ocupação aparentemente sem fim, e alguns diriam ilegal, do Iraque. “Racismo” emergiu como um tópico de contenda devido à candidatura para presidente de Obama e comentários controversos de seu reverendo. No entanto, a maioria diz que ele e outros candidatos “falam bonito” mas não estão dispostos a confrontar fundamentalmente e mudar os problemas de raça e política estrangeira. Como alguém que tem observado o clima sócio-político dos movimentos populares desde 1960, o que mudou (se algo mudou) em relação à equanimidade racial, e humanização de não-americanos, o “outro estrangeiro”?

ZINN: O Movimento dos Direitos Civis foi uma experiência educativa para muitos americanos. O resultado foi mais oportunidades para uma pequena porcentagem de negros, talvez 10% ou 20%, então, jovens negros indo à universidade e entrando em profissões. Uma maior consciência entre brancos – não todos, mas muitos – do racismo. Para a maioria dos negros, entretanto, ainda há pobreza e sofrimento. Os guetos ainda existem, e a proporção de negros na prisão ainda é muito maior do que a de brancos. Hoje, há menos racismo aberto, mas as injustiças econômicas criaram um “racismo institucional” que existe mesmo quando há negros em posições superiores, como Condoleeza Rice na administração Bush e Obama candidato a presidente.

Infelizmente, a maior consciência entre brancos sobre a igualdade dos negros não foi levada para as novas vítimas do racismo – muçulmanos e imigrantes. Não há equanimidade racial para esses grupos, que é enorme. Milhões de muçulmanos e um igual número de imigrantes que, legais ou ilegais, enfrentam a discriminação tanto legalmente por parte do governo quanto extra-legalmente por parte dos americanos brancos – e às vezes americanos negros e hispânicos. Os candidatos presidenciais democratas estão evitando esses assuntos para cultivar apoiar entre os americanos brancos.

Isso é vergonhoso, especialmente para Obama, que deveria usar sua experiência como negro para educar o público sobre discriminação e racismo. Ele é cauteloso em fazer afirmações fortes sobre esses assuntos e política estrangeira. Então, mantendo-se em linha com a tradição de cautela e timidez do Partido Democrata, ele adota posições levemente à esquerda dos Republicanos, mas muito aquém do que seria uma política esclarecida.

ALI: Você disse que o espírito democrático do povo americano é melhor representado quando pessoas protestam e expressam suas opiniões fora da Casa Branca. Como essa natureza de dissenso e protesto serve como o baluarte de uma democracia e uma sociedade civil saudável e funcionando? Muitos argumentariam que isso divide as coisas, ou não?

ZINN: Sim, dissenso e protesto dividem, mas de uma forma boa, porque representam de maneira acurada as divisões reais na sociedade. Essas divisões existem – os ricos, os pobres – se há dissenso ou não, mas quando há dissenso, há mudança. O dissenso tem a possibilidade não de acabar com a divisão na sociedade, mas mudar a realidade da divisão. Mudar a balança do poder em prol dos pobres e oprimidos.

ALI: Uma História do Povo dos Estados Unidos é considerado agora uma obra seminal, ensinada em colégios e universidades por todo o país. Por que você acha que a obra tem tal poder duradouro, tanta influência?

ZINN: Porque preenche uma necessidade, porque há um enorme vazio de verdade nos textos históricos tradicionais. E porque pessoas que conseguem alguma compreensão por si mesmas que há algo de errado na sociedade, ela buscam algo para sua nova consciência; seus novos sentimentos para serem representados por uma história mais honesta.

ALI: Votos de minorias, como hispânicos católicos, foram fundamentais para Bush em 2002, e alguns filhos de imigrantes tem uma raiva e um desdém virulentos contra imigrantes “ilegais”. Parece que muitas vozes marginalizadas esqueceram sua história e agora estão do lado daqueles que tencionam ativamente mantê-los ou às margens ou de alguma forma “oprimidos”. Como explicamos essa discrepância?

ZINN: Porque é do interesse de quem está no poder de dividir o resto da população para governá-los. Colocar os pobres contra a classe média, os brancos contra os negros, nativos contra imigrantes, cristãos contra outras religiões. Serve aos interesses do establishment manter as pessoas ignorantes de suas próprias histórias.

ALI: Muitos dizem que as corporações possuem a mídia americana. Qual é a expressão apropriada para o discurso democrático e disseminação de informação se de fato há um monopólio enviesado sobre a mídia?

ZINN: Como há o controle da mídia pelo poder corporativo, descobrir a verdade depende da mídia alternativa, tais como estações de rádio pequenas, redes como a Pacifica Radio, programas como Amy Goodman’s Democracy Now. Também, jornais alternativos, que existem por todo o país. Também, programas de TV a cabo, que não dependam de propagandas comerciais. E também a internet, que pode alcançar milhões de pessoas desviando da mídia convencional.

ALI: Algo irá mudar com relação à política estrangeira do EUA no Oriente Médio, especificamente na Palestina e em Israel caso os democratas ganhem em 2008?

ZINN: Os candidatos democratas, Clinton e Obama, não mostraram nenhum sinal de mudança fundamental da política de apoio a Israel. Não mostraram empatia com o sofrimento dos palestinos. Obama ocasionalmente se referiu à situação dos palestinos, mas à medida que a campanha tem prosseguido, ele tem enfatizado seu apoio a Israel. Então, uma mudança de política irá exigir mais pressão de outros países e mais educação do povo americano, que sabem agora muito pouco sobre o que está acontecendo com o povo palestino. Os americanos são naturalmente simpáticos àqueles que vêem como sendo oprimidos, mas têm pouca informação por parte de seus líderes políticos ou da mídia, que poderiam lhe dar uma imagem realista do sofrimento dos palestinos sob a Ocupação.

ALI: Como “a esquerda” pode reconciliar sua suposta indiferença à religião com o crescente setor “religioso” da sociedade se juntando a partidos “conservadores”? Pode haver paz entre os dois ou é um cisma permanente? Já notei fanatismo dos dois lados, entre os “seculares” e “religiosos”.

ZINN: A esquerda precisa fazer uma distinção mais clara entre a intolerância do fundamentalismo e a tradição progressista na religião. Na América Latina, por exemplo, há a “teologia da libertação”. Nos EUA, há os padres e as freiras que apoiaram os negros no Sul e que protestaram contra a Guerra do Vietnã. Então não é sobre ser a favor ou contra a religião, mas decidir se a religião pode ter um papel de justiça e paz ao invés de violência e intolerância.

Howard Zinn participou da Segunda Grande Guerra como aviador

Howard Zinn participou da Segunda Grande Guerra como aviador

ALI: Muitos não sabem que você foi um bombardeiro durante a Segunda Grande Guerra. Essa experiência lhe trouxe algum tipo de epifania, catalisando mudanças fundamentais na sua ideologia?

ZINN: Eu não sabia muita história quando me tornei um bombardeiro na Força Aérea Americana na Segunda Grande Guerra. Só após a guerra vimos que, como os nazistas, havíamos cometido atrocidades. Hiroshima, Nagasaki, Dresden, minhas próprias missões de bombardeio. E quando estudei história depois da Guerra, aprendi de minhas próprias leituras, não das minhas aulas na universidade, sobre a história de expansão e militarismo dos EUA.

ALI: Você é um homem em seus anos dourados, e você olha para trás para suas muitas realizações. Você fez coisas impressionantes. Algum arrependimento? E também, se você pudesse escolher algo que fosse seu legado – o que seria?

ZINN: Não tenho arrependimentos sobre minhas atividades políticas, só que às vezes me empolguei demais e não encontrei o balanço apropriado entre as obrigações para com minha família e minha necessidade de estar envolvido com movimentos sociais. Quanto a alguma trabalho meu que corporifique meu “legado”, provavelmente não é um livro, mas a combinação de ser um escritor e um ativista, ser um intelectual público, usar minha instrução para a mudança social.

ALI: Muitos olham para horizontes futuros com olhos sem esperança, cínicos, prevendo cenário desastrosos resultando de nosso descuido e excesso. Recessão. Guerra. Déficit. Extremismo. Anti-americanismo global. Políticas partidárias insinceras. Iremos implodir? Podemos avançar? Você tem esperança para o futuro da América?

ZINN: A situação presente para os EUA parece ruim, mas sou esperançoso, à medida que vejo o povo norte-americano acordar e ser majoritariamente contra esta guerra e o governo Bush, à medida que reflito sobre os movimentos na história e como eles se ergueram surpreendentemente quando pareciam derrotados. Acredito que o povo americano tem a capacidade de criar um novo movimento, que poderá mudar a direção de nossa nação de um poder militar para uma nação pacífica, usando nossa riqueza enorme para necessidades humanas, aqui e no exterior.

Este texto foi traduzido por Carolina Dargel para a Agência de Notícias Anarquistas (ANA).

Teatro: Emma Goldman, entra em cena uma rebelde

Ramón Barea estréia “Emma” no Teatro Arriaga, uma obra sobre a vida da “mulher mais perigosa da América”.

“Requer menos esforço intelectual o condenar do que o pensar”. Esta frase de Emma Goldman retrata a perfeição do seu caráter. Uma mulher ativista que estava a frente do seu tempo e lutou pelos direitos das mulheres e dos trabalhadores desde o final do século XIX e início do século XX. Revolucionária, feminista. Sua luta englobava todas as frentes. Posicionava-se contra a guerra ao mesmo tempo em que defendia o amor livre. Uma experiência vital e apaixonante que o diretor bilbaíno (Natural de Bilbao) Ramón Barea revisa na obra “Emma, la mujer más peligrosa de América” (“Emma, a mulher mais perigosa da América”), uma das cinco produções próprias que o Teatro Arriaga preparou para esta temporada e que estréia hoje,  sexta-feira, 13 de março.

A vida desta anarquista foi descoberta em um livro pelo historiador e ensaísta estadunidense Howard Zinn, que opina “que o poder se enerva quando se consegue a cumplicidade e o sorriso do espectador”, explicou Barea. Com “Emma”, Zinn quis recuperar a figura de uma mulher que acabou expulsa dos Estados Unidos e viveu exilada na Europa e no Canadá por expressar em voz alta seus pensamentos e defendê-los radicalmente.

Elementos de época

Emma Goldman

Emma Goldman

Esta história gerou grande repercussão e fez sucesso em algumas das cidades mais importantes do mundo. Mas pela primeira vez se faz uma versão em castelhano pelas mãos de do diretor Barea, o Arriaga bilbaíno e Toni Acosta, que interpreta a apaixonada Emma Goldman. Junto dela, atores muito conhecidos pelo público basco como Karra Elejalde, Gurutze Beitia e Itor Mazo, que se revezam entre vários personagens nas 20 cenas que compõem a obra.

A cenografa, a cargo de José Ibarrola, só inclui um elemento de modernidade: um espaço industrial. “O vestuário é de época. Foram mantidos até os espartilhos. Isso tudo é complementado com exposições de cinema mudo e documentários da época. Isso quer dizer que não se fazem referências à atualidade. Ainda que seja verdade que muitas lutas e guerras se parecem as de hoje”, analisa o diretor bilbaíno.

Nesta produção não se fala de uma heroína, mas sim de um ser humano que lutava por seus ideais, mas atrás dos quais se escondiam muitas contradições. Emma Goldman, judia nascida na Lituânia, emigrou para Nova York com 16 anos em busca de um mundo mais livre, mas encontrou um processo de industrialização selvagem. Viveu o fuzilamento dos anarquistas e presenciou com alegria a revolução russa, que depois criticou quando virou-se para a burguesia.

A peça mostra o ativismo político e a personalidade de Goldman desde a sua adolescência até os seus 40 anos. A obra termina quando a expulsam dos Estados Unidos ao que o fundador do FBI, “J. Edgar Hoover”, classifica-a como “a mulher mais perigosa da América” quando a investigava.

“É uma peça de teatro político da perspectiva mais humana e contraditória. Foi pensada para que o público se posicione. Se dirige à inteligência do expectador”, adiantou Barea. Goldman foi considerada um inimigo público durante mais de trinta anos por utilizar uma arma perigosa, que está à mão de todo ser humano: a razão.

Leia mais:

1.

“Aquilo com que nós deveríamos estar mais preocupados não é com uma tendência natural ao levante violento, mas antes com a inclinação das pessoas frente a um ambiente de injustiça de se submeterem a ele. Historicamente, as coisas mais terríveis – guerra, genocídio e escravidão – resultaram não da desobediência, mas da obediência.”

2.

“Não há bandeira grande o suficiente para cobrir a vergonha do assassinato de pessoas inocentes.”

3.

“Educação pode, e deve, ser algo perigoso.”

4.

A verdade é tão frequentemente o reverso do que nos foi dito por nossa cultura que não podemos girar o suficiente nossas cabeças para ver o outro lado.

5.

“A verdade tem um poder próprio.

A arte tem um poder próprio.

A velha lição – de que tudo que fazemos importa – é o sentido

Da luta do povo nos Estados Unidos e em todo lugar.

Um poema pode inspirar um movimento.

Um panfleto pode detonar uma revolução.”

6.

“Estou supondo, ou talvez apenas esperando, que nosso futuro pode ser encontrado nos fugidios momentos passados de compaixão ao invés dos sólidos séculos de guerra.”

Leia mais:

Citações originais – [em inglês]

Entrevista realizada em Outubro de 2008

Boulder Weekly: Você sempre comenta que procura omissões na história. O que você acha que está sendo deixado de fora da nossa atual situação histórica?

Howard Zinn: O que está sendo deixado de lado do discurso ou da discussão de que as pessoas estão falando, do que a imprensa está falando hoje em dia – o que está sendo deixado de lado é a história dos abonos do governo, a história do apoio do governo para as corporações e os ricos. Então se você não tem a história, você provavelmente vai pensar ‘Ah isso é algo novo. Isso é um desvio da maneira como os Estados Unidos sempre foram.’ Não é um desvio. É uma continuação de algo que começou há muito tempo e tem prosseguido por toda a história americana.

E o que tem acontecido por toda a história americana pode ser trilhado até a Constituição e a Revolução Americana. E o fato de que a Constituição estabeleceu um governo central forte, e um de seus importantes propósitos era bonificar os fiadores da Revolução porque as letras do Tesouro que eles tinham – como resultado de emprestar dinheiro para o Exército Continental, para o Congresso Continental durante a Revolução – essas letras não tinham realmente valor algum. Mas o novo governo federal foi capaz de resgatar essas letras completamente, e dar aos fiadores o valor integral. E a maneira como eles juntaram dinheiro para fazer isso foi taxando o resto da população, taxando os americanos comuns, que é exatamente o que está acontecendo hoje – abonando essas instituições financeiras fracassadas e planejando pagar por isso com um peso enorme nas costas do americano médio.

Se você começar com a Revolução Americana e traçar um arco de lá até o dia atual, você verá vários pontos onde aconteceu exatamente a mesma coisa, onde o governo desempenhou seu papel de usar seu poder e recursos para apoiar as classes ricas. No caso da Constituição, eles usaram o poder do governo central para apoiar os escravocratas ao assegurarem que seus escravos fugitivos seriam levados de volta conseguindo sustentar um exército forte o suficiente para suprimir rebeliões de fazendeiros, o que de fato tiveram que fazer desde o começo de 1790, quando houve a chamada Whiskey Rebellion na Pensilvânia. Foi aí que os fazendeiros se rebelaram contra as taxas que tinham que pagar e a Constituição criou um governo forte o suficiente para apoiar os expansionistas – as pessoas que vão ocupar o território indígena e que enfrentariam resistência indígena, e que precisariam das forças armadas do governo nacional para lidar com esses indígenas.

E aí você segue o arco até o século XIX, até as enormes benesses de terra gratuita para as ferrovias em 1850 e 1860, até as altas tarifas que o governo colocou em bens importados para ajudar os fabricantes, o que por sua vez elevou os preços das mercadorias para os consumidores americanos. Entre no século XX e veja novamente o governo ajudando as corporações. A Suprema Corte diversas vezes declarou inconstitucional qualquer auxílio aos pobres, declarou inconstitucionais salários mínimos e horas máximas de trabalho. Não foi senão até 1930 que vimos nesse país uma revolta, um país em revolta com greves gerais por todo o país – só então o governo passou legislação em favor dos pobres e das classes médias. Isso foi uma aberração, porque depois da Segunda Grande Guerra, o governo voltou – eu não devia nem dizer depois da Guerra. Durante a Guerra, o governo forneceu enormes contratos de guerra para corporações que lucraram com o conflito. Depois da guerra, quando a indústria aeronáutica estava aos pedaços, o governo subsidiou essa indústria. E sabemos das empresas de petróleo e como o governo, pela permissão de esgotamento do petróleo e por impostos especiais favorece as corporações de petróleo, tem mantido-as funcionando.

Então numa longa resposta à sua pergunta – você não vai conseguir respostas curtas de mim, não! – numa longa resposta à sua pergunta, o que está sendo esquecido no presente discurso sobre o colapso de Wall Street é uma história que mostra que isso é parte de um longo padrão de aliança entre o governo e grandes corporações em detrimento do americano médio.

Boulder: Considerando essa continuação, qual você acha que é o melhor meio para mudanças?

Zinn: Bem, precisamos é claro de uma mudança – uma mudança muito drástica em política governamental. Essa mudança, acredito, deve consistir de, ao invés de subsidiar essas enormes corporações, deixá-las ir a pique. Ao invés de dar um trilhão de dólares para corporações na esperança de que, ao mantê-las boiando, o dinheiro irá eventualmente ir para os que pagam hipoteca e pessoas comuns… ao invés disso, pegue o dinheiro que iria subsidiar essas corporações e use o dinheiro para ajudar as vítimas do sistema financeiro. Use esse dinheiro para pagar as hipotecas das pessoas que estão com dificuldades. Use esse dinheiro para garantir empregos para as pessoas que irão perder seu emprego quando as corporações diminuírem. Use esse dinheiro para criar saúde universal para todo mundo.

Em outras palavras, vão ao coração do assunto. O coração do assunto quando você tem um colapso econômico – e foi isso que aconteceu em 1929 – é que o dinheiro do país tem ido para os super-ricos, e o poder de compra da pessoa comum tem declinado. Essa distância aumenta, e à medida que aumenta, torna-se uma bolha que se estica mais e mais fina e que estoura. A raíz disso é que as pessoas são privadas da riqueza da nação. Portanto, o que a riqueza deve fazer para quaisquer que sejam as necessidades das pessoas está na saúde, educação, empregos…

Desvie das corporações e nacionalize as indústrias que sejam úteis. A maioria dessas corporações não são úteis. São instituições financeiras que compram e vendem papéis e não produzem nada de importante. Mas onde as corporações produzem algo importante, bem, elas devem ter impostos pesados.

Na administração Bush, as 400 pessoas mais ricas dos Estados Unidos ganharam algo como 600 bilhões de dólares durante os anos Bush só via redução de impostos. Isso é absurdo. Precisamos mudar a estrutura de impostos. Agora, Obama tem dito que ele irá aumentar os impostos para os ricos e retirar os impostos para a maioria da população. Isso é um passo na direção certa, embora ele tenha que fazer mais do que isso, ser mais ousado do que isso em suas propostas de taxação, porque nós precisamos de uma redistribuição realmente fundamental da riqueza neste país, e uma garantia dos tipos de coisas de que as pessoas necessitam para sobreviver.

Boulder: Em acréscimo a isso, quais são os fatores-chave para os eleitores nesta eleição?

Zinn: Creio que os eleitores devem votar em Obama, não porque ele vai até onde é preciso ir, mas porque com McCain – ele está preso na filosofia Bush. Com Obama há um tipo de brilho de possibilidade. Nosso grande trabalho não é apenas votar para o Obama para que haja uma possibilidade, mas transformar essa possibilidade em realidade ao criar um movimento social neste país no qual Obama terá que prestar atenção – porque, em última instância, isso é o que traz mudanças. O presidente ou o Congresso nunca começaram mudanças importantes. Não, o que é necessário é um movimento social como os movimentos trabalhistas de 1930, o movimento negro, o movimento contra a guerra, os movimentos das mulheres em 1960, que irão balançar Obama e seus gabinetes conservadores e levá-los a direções mais ousadas, assim como os agitadores dos 30 levaram Roosevelt a direções mais ousadas.

Boulder: Você foi testemunha de tanto movimentos históricos e sociais americanos. De que maneira o atual clima se compara com o de movimentos sociais do passado?

Entrevista de outubro de 2008

Entrevista de outubro de 2008

Zinn: Creio que é diferente no sentido de que o controle da mídia é maior e mais ameaçador hoje do que era em 1960, mas a mídia sempre esteve do lado do establishment. Há coisas hoje que tornam mais difíceis do que em outros movimentos sociais, mas por outro lado, os elementos estão aí para um novo movimento social. Os movimentos estão aí, quero dizer crescendo, crescendo a insatisfação no país – ainda não organizados, mas aí. É um reservatório de raiva, de indignação contra a guerra, contra a administração Bush, contra o sistema econômico. Então há esse reservatório de energia e raiva que ainda não se organizou nem se tornou uma força que pode trazer mudanças. Mas o potencial está aí.

Nesse sentido, nós nos parecemos com outros tempos antes de que os movimentos fossem efetivos – quando eles estavam apenas crescendo, quando estavam apenas se desenvolvendo. O movimento anti-escravidão teve que se desenvolver por 30 anos. O movimento contra a guerra no Vietnã teve que se desenvolver por quatro ou cinco anos. O movimento pelos direitos civis teve que se desenvolver por décadas e décadas. Então, estamos num estágio de desenvolvimento. Você não pode simplesmente olhar para onde estamos agora e dizer ‘Bem, nós não estamos fazendo nada, somos incapazes, somos um fracasso.’ Não, nós estamos numa situação mutável dinamicamente todo dia, e a consciência das pessoas é capaz de crescer dia a dia à medida que olham ao redor e percebem como o presente sistema é desastroso – o sistema de guerras e o sistema de estados nações. Eu acho que há possibilidade e esperança.

Há tanto que se passa neste país que não é relatado… É importante saber que há tanto que está sendo omitido. É tão importante para as pessoas, se não estão prestes a desesperar, que, ao invés de assistir televisão, vão à biblioteca e leiam a história dos movimentos sociais passados e como as pessoas se desesperaram nesses movimentos sociais passados, mas como elas persistiram e persistiram e algo aconteceu.

Boulder: Qual o papel da mídia em manipular o retratar factualmente a percepção das pessoas da verdade?

Zinn: O problema da mídia é que a cobertura é tão superficial. Eles dependem dos eruditos e dos experts e do povo no Congresso, e você não vê a mídia falando sobre as coisas fundamentais. Você não vê a mídia questionando os princípios básicos subjacentes ao que acabou de acontecer. Essa falsa idéia do mercado livre, da economia de mercado, da livre empresa, da empresa privada, todos esses slogans falsos que têm sido colocados nos ouvidos das pessoas.

Ah, a idéia de que ‘Não devemos ter um governo grande!’ que lembro que Clinton falou também. Porque os democratas têm sido cúmplices do republicanos em usar o governo para o benefício dos ricos. Bill Clinton disse ‘Ah, o governo não deve ajudar as pessoas!’ [risadas] e então ele assinou a lei que acabava com a medida do New Deal e ajuda federal para pessoas com crianças dependentes. Então a mídia não tem feito seu trabalho em desafiar as coisas fundamentais e nos dar a história de que precisamos, a perspectiva que precisamos que nos diria que o que é necessário agora não é algum tipo de reforma leve, mas uma reestruturação fundamental da nossa sociedade.

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Entrevista original – [em inglês]

Esta tradução por Nils

“Precisamos da história, mas não como precisam dela

os ociosos que passeiam no jardim da ciência.”

– Nietzsche

História Radical e Historicismo

O primeiro livro editado pela L-Dopa – e outros como o livro de contos de O’Henry estão a caminho – foi a autobiografia do historiador norte-americano Howard Zinn, Você não pode ser neutro num trem em movimento (2005). Livros de memórias não costumam ser lugares particularmente instrutivos sobre a época em que o autor viveu – apenas como se um “pano de fundo” diferente do nosso fosse visível, vez por outra, quando o protagonista se agacha. Zinn – da sua infância pobre à recente contestação da “Guerra contra o terrorismo”, passando por sua experiência como bombardeiro na Segunda Grande Guerra, seu envolvimento com a luta pelos direitos civis no Sul e a campanha contra a intervenção no Vietnã – realiza uma espécie de radiografia. Em seu influente livro A People’s History of the United States, essa visão de raio-X articula o nível macro com o micro. O mesmo se dá em Você não pode ser neutro num trem em movimento, mas dessa vez partindo do individual para o contexto, uma biografia de alianças, de encontros e de uniões, uma história pessoal de histórias inter-pessoais.

A história radical que Zinn advoga diz que se escape da cronologia de sucessões aplainadas com que a explicação da história oficial nos habituou. Ela reconhece e defende a tendência subjetiva na interpretação do passado. David Edwards escreve:


“Como Howard Zinn argumentou em seu recente livro Você não pode ser neutro num trem em movimento, não é o viés que é o problema, mas o tipo de viés (e o fato que pessoas não admitem seu viés mas fingem objetividade). Qualquer análise de eventos envolve um viés simplesmente porque toda análise requere incluir ou omitir certos eventos com base no que julgamos importante. Junto com Zinn, sou feliz em me declarar completamente enviesado – acredito que seres humanos florescem na medida em que são livres para perseguir a vida, liberdade e felicidade da maneira que preferirem.”[i]


É possível portanto traçar uma linha demarcatória entre a história radical e o historicismo. Infelizmente é o encadeamento historicista que estabelece nossa realidade presente, e aqui o real se opõe ao possível. Howard Zinn, negando a causalidade historicista, revela a força que há no agora, indo de encontro à maioria dos historiadores e suas cronologias tradicionais. “É paradoxal que o historiador”, considera Zinn, “que é presumidamente abençoado com a perspectiva histórica, julgue o radical de dentro da estreita base moral do período de atividade do radical, enquanto o radical estima a sociedade do ponto vantajoso de alguma era futura, melhor.”[ii] A história é sempre inconclusa, uma construção permanente e singular.

Inspiração para Lutas Presentes

Zinn, ainda jovem, sendo preso em manifestação

Zinn, ainda jovem, sendo preso em manifestação

Uma característica comum a todas as lutas com as quais Zinn se envolveu é o que se pode denominar efeito geleira. Como uma geleira, que se movimenta lentamente até chegar a um ponto de transformação, os movimentos sociais, na visão de Zinn, estão sempre ganhando momento, até que há a reação em cadeia. De tal forma, ao extrair inspiração do passado, Zinn salienta instantâneos de lutas aparentemente circunscritas a um campo pequeno. Mas julgar tais esforços como pequenos é sempre, como aponta o historiador, um erro de perspectiva.

“Nós devemos ser encorajados por exemplos históricos de mudança social, por como mudanças surpreendentes acontecem subitamente, quando você menos espera, não devido a um milagre do topo, mas porque as pessoas trabalharam pacientemente por um longo tempo. Quando as pessoas ficam desencorajadas porque fazem algo e nada acontece, elas deveriam realmente compreender que a única maneira de as coisas acontecerem é se as pessoas passarem além da noção de que devem ver sucesso imediato. Se elas ultrapassarem essa noção e persistirem, então elas verão as coisas acontecendo antes mesmo de perceberem.”[iii]


A linearidade do decurso, a homogeneidade de um tempo oco – o historiador para Howard Zinn explode tudo isso e trabalha com esses pedaços (como a luta contra a segregação nas bibliotecas descrita na autobiografia, por exemplo) que parecem pequenos e sem importância, mas que ele combinará e de que extrairá inspiração para as lutas presentes. Zinn, ao criticar a ingenuidade positivista no estudo do passado, retorna a história ao seu papel político.

Leia mais

zinn-introducao-voce-nao-pode-ser-neutroExcerto do livro em formato .PDF

Você não pode ser neutro num trem em movimento – Howard Zinn [link interno]

Howard Zinn – blog [Howard Zinn em português]

Howard Zinn – site official [em inglês]

Notas de fim


[i] EDWARDS, David. Burning All Illusions: A Guide to Personal and Political Freedom. South End Press, 1996, p. 190.

[ii] ZINN, Howard. The Zinn Reader: Writings on Disobedience and Democracy. Seven Stories Press, 1997, p. 123.

[iii] ZINN apud BARSAMIAN, David. Louder Than Bombs: Interviews from the Progressive Magazine. South End Press, 2004, p. 207.