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ratos&homens“Ratos e Homens” – John Steinbeck.

Eu não havia lido nada ainda de Steinbeck, e foi com prazer que constatei que os elogios que recebe são inteiramente merecidos. É difícil dizer exatamente no que consiste um livro da envergadura deste “Ratos e Homens”, já que a trama é bastante simples. Dois amigos, um deles um deficiente mental mas dotado de grande força física trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia nos idos de 1930. Marginalizados, seus sonhos são de ter terra própria – uma pequena chácara. Três linhas se entrelaçam com clareza no livro: em primeiro lugar, a capacidade de compor personagens de Steinbeck, o que o aproxima muito do teatro, fazendo de cada capítulo uma cena; em segundo lugar, o tom trágico que se estabelece já desde as primeiras páginas, enobrecendo aquele microcosmo; e em terceiro lugar, a discussão sobre justiça social, tornando a “utopia” da terra própria quase acessível na medida em que os trabalhadores se unem para tanto. Um olhar honroso sobre um mundo desonrado.

stigmata-pkd“The Three Stigmata of Palmer Eldritch” – Philip K. Dick.

Que posso eu dizer? Alguém já falou que a ficção científica é a verdadeira literatura de idéias de nosso tempo, e isso faz bastante sentido. Este livro, ainda não traduzido para o português (creio eu) fala dos miseráveis colonos de Marte que, para aguentar a vida, usam uma droga chamada Can-D. Essa droga realiza uma transmigração daqueles que a tomam para o corpo de bonecos parecidos com a Barbie. Contudo uma nova droga surge, desestabilizando o mercado, que inclui desde videntes corporativos até executivos “mentalmente evoluídos”. O estilo em si de Philip K. Dick é claro e límpido, mas de modo algum simplista. É o tipo de escritor que disfarça um hospício de parque de diversões, e vice-versa.

despovoador“O Despovoador + Mal Visto Mal Dito” – Samuel Beckett.

Estes são os últimos textos do autor de “Esperando Godot”. São extremamente breves, mas profundamente atormentados e densos. Beckett marchou progressivamente a um estilo econômico, seco, irredutível. “O Despovoador” é a descrição rigorosíssima de um cenário dantesco. Não, nem isso – é uma situação de caos quase inconcebível descrita em frases precisas, meticulosas, breves. A contradição entre a forma e o conteúdo põe em movimento uma máquina exasperante, uma máquina de tortura elevada à potência de mundo. Mas “Mal Visto Mal Dito” é mais solitário e talvez (pode-se dizer isso?) esperançoso. Se algo deve ser formulado sinteticamente sobre esses dois livros é que a modernidade encontrou aí um limite, que espia de volta para o leitor e expia suas faltas em estranha oração.

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One Comment

  1. Nils, gostei de saber o que anda lendo. O Steinbeck realmente é um escritor interessante e que gosto mto, mesmo sem ler o clássico, segundo os entendidos, “Vinhas da Ira”.

    O “Ratos e Homens” é um exemplo de como a ingenuidade guarda uma violência quando tocada, afinal, falta o tato do que é um ato violento.

    Um livro do Steinbeck que é mto bom é o “Ruas das ilusões perdidas”, coisa boa mesmo, em inglês acho que é Carney Row.

    Abraço
    mk


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