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Jules Laforgue

Jules Laforgue

Jules Laforgue (1860 – 1887) é um poeta que, ainda que menos famoso que um Rimbaud ou um Baudelaire, especialmente aqui pelo Brasil, tem uma importância imensa na história da literatura do século XX, como um dos pioneiros do verso livre em francês e como um entreposto simbolista-impressionista.

De origem uruguaia (como Lautréamont) a família de Laforgue mudou-se para Paris onde, em 1877, sua mãe morreu dando à luz. Nesse ano difícil, Jules falha no exame do baccalaureat e também no ano seguinte, e ainda uma terceira vez. Mas começa a leitura de grandes autores franceses e visita os museus parisienses. Em 1879 publica seus primeiros poemas e começa a tomar parte dos círculos literários, tornando-se próximo de Paul Bourget (a quem dedicará seu primeiro livro, Os Lamentos).

Em 1881 torna-se secretário do colecionador de arte Charles Ephrussi e trabalha em seu primeiro livro de poemas, Os Lamentos (Les Complaintes), que alguns críticos vêem como uma tentativa consciente de criar impressionismo na literatura. Nesse ano seu pai, que estivera convalescendo em Tarbes, morre, sem que Laforgue atenda ao funeral.

Trabalha posteriormente como um conselheiro cultural da imperatriz Augusta, em Berlim. Nesse período escreve L´Imitation de Notre-Dame la Lune. Em 1886 casa-se com uma inglesa, Leah Lee. Laforgue morre no ano seguinte de tuberculoso, aos vinte e sete anos. Sua esposa logo o segue.

Jules Laforgue influenciou mais autores fora de seu país do que dentro. Algo parece “in-francês” em seu trabalho, que exerceu notável ação em “estrangeiros” como Ezra Pound e T. S. Eliot (especialmente em Prufrock).

Tematicamente, vale notar que Laforgue se coloca a favor da liberação das mulheres em diversos poemas, ansiando por uma relação de igualdade. E reconhece para isso a necessidade de direito sobre sua capacidade reprodutiva – em muitos poemas defende o aborto (notem: isso no final do século XIX).

Formalmente, domina tanto o verso livre quanto intrincadas formas fixas. E nenhum prurido o impede de fazer rimas como s´enfichent com sandwiche.

Bem, estou trabalhando em algumas coisas de Jules Laforgue, com vagar e meticulosidade. Quem sabe quando teremos algo pronto? Vou adiantando aqui este poema:

COMPLAINTE DES BONS MÉNAGES

L´Art sans poitrine m´a trop longtemps bercé dupe.

Si ses labours sont fiers, que ses blés décevants!

Tiens, laisse-moi bêler tout aux plis de ta jupe

Qui fleure le couvent.

Le Génie avec moi, serf, a fait des manières;

Toi, jupe, fais frou-frou, sans t´inquiéter pourquoi,

Sous l´oeillet bleu de ciel de l´unique théière,

Sois toi-même, à part moi.

Je veux être pendu, si tu n´es pas discrète

Et comme il faut, vraiment! Et d´ailleurs tu m´est tout.

Tiens, j´aimerais des plissés de ta collerette

Sans en venir à bout.

Mais l´Art, c´est l´Inconnu! qu´on y dorme et s´y vautre,

On peut ne pas l´avoir constamment sur les bras!

Eh bien, ménage au vent! Soyons Lui, Elle e l´Autre.

Et puis, n´insistons pas.

LAMENTAÇÃO DOS BONS CASAIS

Arte sem peito me nina à gandaia.

Lavoura altiva, trigo fraudulento!

Quero balir nas dobras da tua saia

Que rescende a convento.

Comigo o Gênio, servo, sempre incha;

Tu, saia, faças frufru sem pergunta,

Sob o azul ilhó do bule de um chá,

És tu, a mim adjunta.

És discreta ou disponho-me à degola

Tal deve ser! Mas fora isso és tudo.

Bem, amarei as dobras da tua gola

Sem tirá-la contudo.

A Arte, o Obscuro! nela chafurdamos,

Sempre nos braços não pode se ter.

Vai! Ele, Ela e o Outro sejamos.

Melhor não insistir.

(Jules Laforgue – do livro Les Complaintes

Trad.: Nils Skare)

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