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O jornal Folha de S. Paulo de 8 de julho passado trazia uma matéria com a seguinte chamada: “Escola usa professor para promover produto”. Segundo o texto, as redes COC e Dom Bosco fizeram seus professores participar de ações de marketing com a distribuição de “brindes” na volta às aulas. Os educadores entrevistados, naturalmente, “divergiram” sobre o significado de uma ação que, talvez, como sugeriram as direções dos colégios, pudesse criar um maior envolvimento entre professor e aluno. Uma mãe de três alunas, entrevistada sobre o assunto, respondeu não sem certa ingenuidade: “Quem não gosta de ganhar brinde? Meus filhos ganharam uma bolachinha na escola que eu nunca tinha comprado. Gostei e fui ao supermercado para comprar mais.”

O jornal apresentou sua opinião sobre o assunto em editorial do dia 11 seguinte. Fiel à sua linha tida como moderada, o periódico reconheceu a existência da publicidade no mundo da criança e se colocou contra “exageros”. Lastimou também a promoção de produtos de alto teor calórico – um pouco como alguém que criticasse um incêndio por excesso de luminosidade nas horas da noite dedicadas ao sono -, ao mesmo tempo salientando que “leis draconianas” não se aplicam. O importante, em todo caso, é “formar professores conscientes de que nem toda propaganda é compatível com sua missão de ensinar”, pressupondo obviamente que já existem propagandas compatíveis com o ofício de professores.

Essa pequena notícia de jornal, sem grandes atrativos em meio à situação em Honduras ou à gripe suína, é no entanto bastante sintomática se vista de uma perspectiva histórica. Não tem, é claro, nenhum dos componentes de um bom escândalo que vendem jornal. Na verdade, parece até um pouco deslocada e aguada, sem sangue ou sexo. Mas diz respeito à entrada pela porta da frente da mercadoria no espaço de ensino. As possibilidades a partir daí são enormes.

Podemos ter professores distribuindo biscoitos  na saída ou entrada das escolas, podemos ter alunos vestindo uniformes com marcas de empresas (que podem até ganhar alguma isenção fiscal), podemos ter livros didáticos com exercícios associando a matéria dada a um certo produto, podemos ter sessões diárias em frente à TV com programas de ‘edutainment’ (education + entertainment). As possibilidades são muitas e o pessoal do marketing sempre foi conhecido pela imaginação vasta e capaz de vencer os muitos obstáculos. Isso segue uma linha de desenvolvimento já traçada nos países de capitalismo avançado: com a transformação da infância em mais uma faixa de consumo, as amarras ligando a criança aos pais e às instituições próprias a ela (notadamente a escola) são afrouxadas.

As revoluções burguesas (Revolução Francesa, Restauração Meiji no Japão etc) sempre introduziram o ensino compulsório por dois motivos bastante óbvios: a formação de trabalhadores capacitados para as novas necessidades da sociedade emergente, e o endoutrinamento ideológico (“amor à pátria” etc). Contudo, essa recente infiltração do mercado no ensino mostra que é preciso formar o indivíduo também como consumidor.

Há especificidades interessantes aqui, porque uma coisa é que um canal de televisão transmita um programa para crianças de 3 anos de idade, e que nos intervalos ela seja submetida à influência das propagandas (usando, por exemplo, movimentos circulares em câmera lenta que, segundo os especialistas em consumo infantil (uma categoria por si só digna de nota) atrai mais a atenção da criança pequena).  Mas outra coisa é que o próprio professor seja o veículo desse “ensino”. Havia uma época em que o professor precisava se preocupar com a resistência do aluno ao ensino. Hoje, é a própria sociedade que resiste pelo aluno.

Se a economia enlouqueceu, a sociedade já não tolera aprender nada. A relação de ensino já se encontra ela também proletarizada, reduzida a uma subjetividade sem substância. Por mais que se tenha à disposição uma diversidade de recursos técnicos, o movimento próprio por parte do sujeito está comprometido. A rápida especialização, o ensino “voltado para o mercado”, a dissociação entre o conteúdo e as práticas cotidianas, todos esses eixos do atual ensino serão substituídos pela elevação dessas características ao próximo nível:  não mais a mercantilização do ensino, mas sim o ensino da mercadoria.

Nessa situação, é possível que a maior dificuldade seja manter um mínimo conhecimento necessário para o funcionamento das engrenagens. Os especialistas poderão discutir infindamente um cacoete técnico sem a menor noção do lugar e propósito que esse exame ocupa no mundo simplesmente porque o mundo que sempre lhes terá sido apresentado em seus anos de formação terá sido o mundo à parte da mercadoria. Não se dirá tampouco que o ensino é voltado para o mercado porque não haverá distinção substancial – a educação será avaliada como um “investimento”, como já o é na verdade. A dissociação entre o conteúdo e a vida será superada porque o próprio conteúdo ensinado passará a ser o professor.

Trata-se de atentar para algumas coisas. Em primeiro lugar, para as características brasileiras desse movimento. O Brasil tem uma modernidade sui generis, e portanto trará novidades no decorrer desse processo.

E, em segundo lugar, as possibilidades de contestação. Se ela existe, transcende simplesmente o âmbito da educação.  Nos parâmetros deste texto, pode ser resumida desta forma:

  • O capitalismo não pode ser reformado.
  • É preciso cuidar ao se espelhar em modelos distantes ou passados.
  • Atentar para a categoria de “proletário”.
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