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Humor e Ingenuidade

Após passar três anos na cadeia acusado de peculato e depois ser inocentado, William Sidney Porter (1862 – 1910), norte-americano nascido na Carolina do Norte, passou a escrever sob o pseudônimo de O’Henry. O significado exato desse nome está até hoje aberto a especulações (para uns seria o nome de um carcereiro da prisão, para outros o nome de um cachorro, entre tantos outros), e o próprio autor, quando perguntado, dava sempre uma resposta diferente. Em breve – possivelmente em março – a L-Dopa estará lançando um livro com 8 traduções desse prolífico contista.

O’Henry escreveu pelo menos 400 histórias (há quem mencione até 600) e foi fundamental no estabelecimento do conto como uma forma literária. “William Sidney Porter criou quase sozinho a forma da história curta que floresceu brevemente na virada do século. Ninguém após ele a praticou com o mesmo sucesso.”[i] Suas histórias, mesmo quando mais dramáticas, estão sempre permeadas de humor. É um humor até certo ponto ingênuo, característico do mundo anterior à Primeira Guerra Mundial. E mesmo ao ser irônico, não há nada cáustico ou ofensivo. “Ele empunha a pena que comanda um poder incomum de sátira, sem sugestão de mordacidade ou amargura.”[ii] É impressionante que apesar de sua vida ter sido repleta de sofrimento (a prisão, a morte da primeira esposa, o divórcio da segunda), a ponto de desenvolver um alcoolismo que o mataria antes dos 50 anos de idade, sua prosa é sempre leve e otimista. “Além disso, ele está resguardado da amargura por seu sentido de amor aterrador”, escreve André Breton, “como se ele possuísse o dom de espiar à vontade no poço das ilusões de infância.”[iii]

Narração e Engenhosidade

Foto de uma das raras entrevistas de O'Henry

Foto de uma das raras entrevistas de O'Henry

Foi Breton, figura inescapável do surrealismo, que o incluiu como antecessor em sua Antologia do Humor Negro. É porque além da leveza e otimismo, O’Henry é pródigo em situações estranhas, em inversões de perspectivas e, é claro, seus finais inesperados. “A história curta é caracteristicamente uma forma ‘dirigida para o fim’: ela leva tipicamente a um clímax que envolve um momento de revelação, ou para o personagem central ou para o leitor ou para ambos”, sintetiza Martin Scofield. “Nesse sentido O’Henry, com suas tramas cuidadosamente elaboradas, ainda que frequentemente simples, é um narrador paradigmático.”[iv]

De fato, se é possível caracterizar O’Henry de alguma forma, é como um narrador. Contudo, isso não nos aproxima de sua figura. Ao contrário, ela nos afasta. É Walter Benjamin quem escreve:

“Uma experiência quase cotidiana nos impõe a exigência dessa distância e desse ângulo de observação. É a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. Quando se pede num grupo que alguém narre alguma coisa, o embaraço se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências.”[v]

As histórias de O’Henry são testemunhas de um outro tempo e, talvez, fonte de inspiração para buscar essa reciprocidade daquilo que se viveu com o que outros o fizeram, apesar do poder de separação do mundo contemporâneo. E é também um influxo literário pleno do puro prazer da escrita. “A tecelagem do conto, a técnica em esconder o ápice final, a cor e o momento disso, tudo depende do narrador. O’Henry é o rei coroado da antiga ordem americana do isso me lembra de uma outra. Lê-lo é às vezes quase como sentir sua presença física.”[vi]

Leia mais

O’Henry – Biography and Works [em inglês]

The O’Henry Prize Stories [em inglês]

Marilyn Monroe – O’Henry’s Full House [em inglês]

Os Caminhos que Tomamos – conto de O’Henry traduzido por Fernando Pessoa

Notas de fim


[i] MOLLENKOPF, John H. Power, Culture, and Place: Essays on New York City. Russel Sage Foundation, 1988, p.123.

[ii] BUCK, Charles Neville. The Lighted Match. BiblioBazaar, 2006, p. 99.

[iii] BRÉTON, André. Anthology of Black Humor. City Light Books, 1997, p. 189.

[iv] SCOFIELD, Martin. The Cambridge Introduction to the American Short Story. Cambridge Univ. Press, 2006, p. 117-118.

[v] BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Editora Brasiliense, 1996, p. 197-198.

[vi] PATTEE, Fred L. The Development of the American Short Story. Biblo & Tannen Publishers, 1923, p. 361.

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