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Os escritores superam seu narcisismo ao escrever por um outro que se é interiormente para o interior que é um Outro. O leitor é sempre e somente uma testemunha dessa troca epistolar. No caso do ensaísta, seu Outro é a idéia. Na medida em que é o Outro que garante retroativamente o ser da idéia, pode-se dizer que o escritor só sabe a origem da carta que recebe pelo selo, não pelo remetente. O escritor nunca saberá se o que testemunha no Outro é de fato a origem do que escreve. Mas o ensaísta por sua própria idéia testemunha o ser do Outro. É sua diferença com relação ao poeta. Um ensaio pede uma testemunha, um poema não.

"Sempre se esquece que o filósofo, tal como o poeta, é o portador de futuros entre nós e pode contar menos do que os outros com a participação de sua época." (Rainer Maria Rilke)

"Sempre se esquece que o filósofo, tal como o poeta, é o portador de futuros entre nós e pode contar menos do que os outros com a participação de sua época." (Rainer Maria Rilke)

Quanto mais o ensaio se distancia do hermetismo da poesia, mais ruma à clareza do manifesto. Nesse processo, contudo, não fica garantido um testemunho cabal. Mesmo terminologias esotéricas, necessárias a toda formalização científica, são estranhas à intenção do ensaio, que não é o ensino, mas o comentário. A forma ensaística, no seu enunciado, não pede pelo sujeito da ciência, apenas por um sujeito cuja ciência se faça ensaiar. Juízos negativos imputados ao ensaio por sua falta de cientificidade condenam sua suposta ancestralidade literária. Realmente, na medida em que literatos como os de que fala Nietzsche pretendem pescar todo o oceano com uma única rede, essas objeções fazem sentido. Mas o que há de literário num ensaio não é sua forma, o que acarretaria inevitavelmente na dissolução dela mesma; o que há de literário está na contemplação da idéia, e nada mais. É somente levando isso em consideração que é possível falar de ficção na escrita de um ensaio. O Outro é uma ficção. E é somente na escrita que se materializa a idéia do ensaio.

Como os pintores e os escultores, que têm a prudência de esconderem suas obras sob um pano branco enquanto não estão prontas, a letra do ensaio se ressente da conversa despropositada. Já quando Sócrates condena a invenção da escrita como fármaco da memória, tinha em mente a retórica sofística, e a cautela ainda é justificada. Unindo-se a primeira posição à segunda, tem-se que o ensaio só pode existir enquanto coisa escrita, porque ele guarda uma relação muito particular com a memória, ainda que escondida pelo ensaísta. Como as palavras ensaiadas são sempre potências, elas pertencem a um tempo que não o cronológico, mas a um tempo efêmero, uma piscadela, que resgata um instante na memória. Ao contrário do sistema, que procura tudo explicitar, o ensaio torna presente uma ausência, para dizer como os estruturalistas. A verdade está ausente no ensaio, mas como um inseto de uma crisálida. O ensaio apenas indica a verdade que emergiu de si – ele a indica ironicamente. Essa indicação irônica é o resultado de uma encenação literária da contemplação da idéia. É a poesia manifesta.

"A lei mais interna do ensaio é a heresia. Ao transgredir a ortodoxia do pensamento, algo se torna visível no objeto cujo propósito secreto da ortodoxia era manter invisível." T. W. Adorno

"A lei mais interna do ensaio é a heresia. Ao transgredir a ortodoxia do pensamento, algo se torna visível no objeto cujo propósito secreto da ortodoxia era manter invisível." T. W. Adorno

Embora renuncie ao hermetismo terminológico, isso não habilita o ensaísta a ser imediatamente claro, já que, para o ensaio, a clareza ou qualquer outro recurso estilístico é apenas uma trilha para a contemplação. Quando o ensaio fala com o vocabulário das coisas na sintaxe das idéias, aproxima-se da nomeação salvadora. Quando, ao contrário, fala com o vocabulário das idéias na sintaxe das coisas, aproxima-se da alegoria conceitual. A nomeação salvadora só adquire um caráter messiânico, como se costuma condenar em Benjamin, se o ensaio pretende inscrever esse nome, às vistas de todos, na materialidade de seu comentário, na sua “escritura”. A alegoria conceitual, por outro lado, só confere ao ensaísta um testemunho, que não pode ser provado, da idéia verdadeiramente representada.

A ironia do ensaísta, com raízes em sua escrita profana e em seu testemunho laico, não prende suas palavras ao passado, mas antes, as arremessa para o futuro, ao apropriar-se de cada idéia num instante decisivo. O ensaísta deve estar alerta para a tentação do volume, da cronologia “exaustiva”, como se um ensaio fosse alguma espécie de documento cuja pertinência aumentasse com o acúmulo de páginas, e a história, com o acúmulo de “fatos”. Em última análise, isso deriva da impossibilidade formal de se estabelecer um término. Nisso consiste o olhar voltado para trás que tenta resgatar com juros o máximo possível do passado. Seu inverso é a consciência do risco, que torna certas palavras imprescindíveis. Nenhum espírito livre sonha com segurança, diz E. E. Cummings.

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