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Jorge Luis Borges, no seu Tema do Traidor e do Herói (“Artifícios” – 1944), trata de maneira sublime e exata o motivo destes dois filmes: The Departed (EUA, 2006 – lançado no Brasil como Os Infiltrados) e Infernal Affairs (Hong Kong, 2002, sem lançamento no Brasil). Como seria incabível resumir o conto de Borges, só resta o esforço de ver as películas não pelo que dizem na superfície e nem pelo que dizem um contra o outro. Mas algo um pouco além (se isso for factível), onde dois exemplos de cinema contemporâneo convergem para aquilo que se torna invisível no mundo, ou, talvez melhor ainda, para aquilo que o mundo se torna no invisível.

Tony Chiu-Wai como Chan Wing-Yan

Tony Chiu-Wai como Chan Wing-Yan

O filme norte-americano é uma refilmagem do filme chinês. O enredo diz respeito à história da polícia contra a máfia: há um infiltrado da polícia entre os bandidos e um infiltrado mafioso entre os policiais. É claro que há diferenças significativas logo ao primeiro olhar: o filme americano, dirigido por Scorcese tem bem mais violência explícita (sangue e mais sangue), é repleto de palavrões (a ponto do ridículo) e tem uma cena de sexo bastante clara. No chinês, nada disso. O mafioso americano é o histriônico Jack Nicholson. No chinês, o bem mais comedido Eric Tsang. O filme americano capta a audiência ocidental ao evitar o uso de flashbacks sentimentais e melodramáticos, coisa que parece desconfortável no filme chinês. Uma sala de cinema como qualquer outra em Infernal Affairs vira um cinema pornô em Os Infiltrados. Um carregamento de cocaína na película oriental vira um carregamento de chips para mísseis nucleares no ocidental. E por aí vai. Mas há uma diferença que pode funcionar como uma alavanca para um pensamento mais geral, isto é, o final.

Leonardo DiCaprio como "Billy"

Leonardo DiCaprio como "Billy"

No filme norte-americano, o bandido-disfarçado-de-mocinho mata o mocinho-disfarçado-de-bandido. Por fim, ele mesmo é morto sem que sua real identidade fosse revelada. No filme chinês, o infiltrado mafioso na polícia mata o agente policial e pronto. Nada mais acontece. Não é desmascarado, não é preso, não é morto. Apenas tem que viver com sua consciência.

O título do filme chinês faz referência ao “caminho sem paradas”, isto é, o Avici, um lugar no inferno budista onde o ofendedor renasce diversas vezes até se livrar de todo seu karma. Este é o mais longo dos infernos, e segundo alguns relatos é possível passar ali até 1018 anos.

Eric Tsang como Hon Sam

Eric Tsang como Hon Sam

O final do filme norte-americano apela para nosso senso de moralidade, de ver as coisas serem “equilibradas”, de ver o “malvado” se dar mal, já que o mocinho não pôde se dar bem. Em certo sentido, o filme oriental sugere algo mais terrível. Em primeiro lugar, o fato de o agente policial infiltrado só ser reconhecido como herói na morte. E, em segundo lugar, a ausência de uma punição aparente para o malvado.

Jack Nicholson como "Frank"

Jack Nicholson como "Frank"

Tudo somado, a película americana, ainda que não com um happy ending, satisfaz o desejo de restabelecimento da essência na aparência, um vir-à-tona da verdade no mundo dos fenômenos. “Há verdade para todos”, diz o filme dirigido por Scorcese, “e quando ela aparece ela é sempre justa.”. No filme oriental, a verdade não se desvela; é claro, nós, os espectadores, sabemos de toda a história de Lau Kin-Ming (Andy Lau), e é aí que o filme chinês pergunta pelo quiasma irresolúvel entre o que é e o que aparece. “Há verdade,” diz a película de Andrew Lau e Alan Mak, “mas nem sempre é justo que ela apareça para todos.”

Talvez haja um resumo ainda mais direto da complementaridade entre o filme ocidental e o oriental. No primeiro, a vida é tornada um suplício pelos maus, que precisam ser vencidos. No segundo, a vida já é, de um jeito ou de outro, um suplício, que só não é vencida pelos maus. Eles vivem no mais longo dos infernos.

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