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Horse Feathers (1932 – “Os Irmãos Marx na Universidade”) é um caso exemplar do modo como esses irmãos comediantes construíam verdadeiras pérolas não simplesmente do humor, mas do cinema e da representação. Seus filmes não apresentam este ou aquele personagem engraçado – é o mundo que é colocado de ponta-cabeça e, não propriamente ridicularizado, mas tornado mais poético.

A história não poderia ser mais simples. Groucho assume como reitor de uma universidade e encontra Chico e Harpo que vão ajudá-lo a ganhar um jogo de futebol americano contra uma universidade rival. E há o par romântico de Zeppo. Só isso. Mas nesse desenrolar o riso é recolocado em sua posição de catarse e o próprio Sentido adquire um novo sentido.

“Dizer em que esse tipo de magia consiste é difícil”, se esforça para analisar nos comediantes norte-americanos Artaud, “é de qualquer forma algo que não é especificamente cinematográfico talvez, mas que não pertence tão pouco ao teatro e de que certos poemas surrealistas bem-sucedidos, se eles existissem, poderiam dar uma idéia.”[1] O surrealismo é frequentemente evocado ao se tratar dos irmãos Marx; outra maneira de encarar as coisas (mas ainda no terreno do inconsciente) foi proposta por Zizek em seu excelente documentário The Pervert’s Guide to Cinema – Harpo como o Id, Chico como o Ego e Groucho como o Super-Ego. Mas é mais complicado do que isso e Zizek apenas roça no tema.

Se em Duck Soup (1933 – “Diabo a Quatro”) o “negativo” do filme é a guerra – será preciso esperar até Kubrick fazer “Doutor Fantástico” para se encarar o militarismo de maneira igualmente poderosa – então neste Horse Feathers o contraste se dá com a instituição de ensino mas, mais ainda, com o esporte. Não se trata de opôr o esporte “com regras” ao humor “sem regras” dos irmãos Marx (a propósito: em 1931 o filme Monkey Business foi banido da Irlanda por “indução à anarquia”). Mesmo o humor dos Marx segue “regras” (o termo não é exatamente apropriado) – Harpo é mudo e toca harpa, Chico fala com sotaque italiano e toca piano, e isso sempre. O que existe de antagônico é o fato de que no esporte há sempre uma tática, ou mais precisamente um cálculo – ainda mais notadamente no futebol americano (os “códigos” do jogo são elemento narrativo importante – e também na cena da senha “swordfish” no bar…). Os irmãos Marx não calculam rigorosamente nada. E, como diz Elias Canetti, o homem exemplar é justamente aquele que não é guiado pelo cálculo[2]. Os irmãos Marx são comediantes. E modelos.


[1] ARTAUD, A. – Le théâtre et son double. Éditions Gallimard, 1964. p. 213.

[2] CANETTI, E. – A consciência das palavras: ensaios. Companhia das Letras, 1990. p. 204.

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One Comment

  1. não fazia idéia do blogue !!!!!!!!!!!


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