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Solidão e Literatura

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No discurso de qualquer sujeito existem certo significantes que podem ser denominados significantes-mestres. São os que mais se repetem, uma espécie de fim em si mesmos. Possuem também a qualidade de serem indefiníveis para o sujeito. Realmente, visto de perto nenhum significante é compreensível. Contudo, o sujeito acredita sempre que existe alguém que pode compreender o seu significante-mestre. Essa pessoa pode ser denominada de sujeito-suposto-saber, que por sua vez está incorporado na ordem simbólica, no grande Outro. Isso, obviamente, é uma ilusão, ainda que necessária no desenvolvimento psíquico do sujeito.

A solidão, ou a maturidade, o que dá no mesmo, se dá quando percebemos que nunca poderemos compreender plenamente nosso significante-mestre, e que ninguém tampouco poderá fazê-lo para nós.

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A Arte pede ao sujeito apenas que ame seus significantes-mestres, mesmo que ele não possa compreendê-los. Esse é o significado por trás do lema: “Ama teu sintoma como a ti mesmo.” Mas cabe a pergunta: fomos obrigados a amar esse sintoma ou somos livres para amar esse sintoma? Naturalmente, a resposta vai de encontro às duas alternativas. Nossa paixão por nosso sintoma sempre já aconteceu, ela se deu em algum lugar no passado e nós apenas constatamos e tentamos arcar com isso.

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selo

É lugar comum dizer que todo texto é uma carta. É também lugar comum afirmar que, para ter certeza absoluta de que uma carta não se extraviará, basta nunca enviá-la. Mas esse é o risco da literatura – de que algo se perca, que não chegue ou, se chegar, seja incompreensível, ilegível.

Nada é tão nosso, tão essencialmente nosso quanto nosso desejo e, por extensão, nossa fantasia. Quanto mais se obedece ao imperativo de escrever as fantasias do sujeito (isto é, encapsulá-la com idéias e solidificá-la com palavras) mais se corre esse risco de que a carta se perca – mas é preciso que a escrita corra esse risco.

Nem toda fantasia é boa o suficiente para ser lida. E ainda assim é preciso alguém que leia essas cartas negras e abomináveis que sentimos ser necessário escrever, mesmo que para destruí-las depois. A carta deve ser enviada – mas será possível delimitar uma ética negativa também?

A carta não poderá mentir.

Isso aparentemente não diz muito, mas é na verdade bastante claro, já que é pesado, medido e regulado pelo desejo.

É claro que a carta poderá até mesmo levar ao erro, mas ela será escrita sempre de boa fé, sem o propósito de enganar. Enfim, como foi dito antes, a carta pode chegar amassada e pouco legível.

O selo será o estilo. Isso inicialmente ninguém reconhece, nem mesmo o próprio escritor. Não sabemos qual país o emite. Mas à medida em que há mais cartas, é preciso imprimir mais selos. Aos críticos, as filatelias. E aqui, um sistema postal para fazer funcionar.

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