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A Boca

1

Quando o segundo garçom do restaurante veio contar a Cláudio que havia um homem comendo ininterruptamente fazia quatros horas, o gerente decidiu verificar por si mesmo.

“Qual mesa?” perguntou ao garçom.

“A doze.”

Ficou atrás da mesa do bufê, tentando entender a figura. Era um senhor de cerca de quarenta anos, bem vestido, não exageradamente magro mas ainda assim magro. O rosto era da tristeza de um bicho.

A cada dez minutos Cláudio voltava àquele esconderijo e observava o homem. Fez isso por cerca de duas horas, e o homem comia normal e placidamente. Por um momento o gerente supôs que aquilo fosse um pesadelo, e depois decidiu simplesmente que chegaria a hora do restaurante fechar e o homem teria que ir embora. Foi o que aconteceu.

2

No dia seguinte o homem apareceu na hora do almoço. Cláudio tremeu. Depois que o homem já havia comido por algumas horas, o gerente se aproximou dele:

“O senhor está contente com o serviço?”

“Oh sim. É muito bom.”

“O senhor está gostando da comida?”

“Muito boa, muito boa.”

Finalmente Cláudio arriscou:

“O senhor ainda quer mais alguma coisa?”

“Sim, claro que sim. Ainda não estou satisfeito.”

Por um momento o gerente do restaurante procurou fazer um esforço para expulsar aquele cliente. Mas logo viu que não conseguiria. Já havia botado para fora dois moços bêbados na história daquele restaurante. Contudo, sentia-se incapaz de expulsar alguém dali simplesmente por comer.

3

O homem passou a freqüentar o restaurante todo dia, e lá ficava o dia todo. Os funcionários passaram a cochichar. Por fim Cláudio decidiu falar com o dono do restaurante. Foi até o escritório do capitalista e explicou o problema.

“Não sei como é possível uma coisa dessas,” disse o gerente. “Foge a qualquer explicação racional.”

“Razões não costumam dar dinheiro,” diz o dono em tom benevolente.

O capitalista foi até o restaurante e conversou com o homem. Chegaram a um acordo. O homem receberia toda semana, incluindo os gastos com comida, para exibir seus dons de guloso. Ele ficaria em cima de um palco no centro do restaurante, junto com a seguinte placa: O único restaurante que satisfaz o incrível homem-boca.

O procedimento do dono do restaurante provou-se um duplo golpe de mestre. Por um lado, muitos eram atraídos ao restaurante simplesmente pela pequena fama que aquela aberração angariava. Por outro, quando viam alguém comer tanto daquela comida, passavam a julgá-la melhor do que talvez fosse. Cláudio, por sua vez, eram quem servia a boca. Assim como não pôde expulsá-la, sentia que agora não poderia perdê-la.

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