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vlcsnap-188979O filme Bom-dia (Ohayô – 1959) do diretor japonês Yasujiro Ozu traz um enredo extremamente simples. Nos subúrbios de uma grande cidade, dois meninos fazem greve de silêncio para que o pai compre uma televisão. Ao redor desse núcleo, uma gama de personagens se entrelaça.

O que impede o fluxo tranqüilo das palavras é uma falta, mas uma falta constitutiva. Há um verso de Stefan George que diz:

Nenhuma coisa que seja onde a palavra faltar

Heidegger comenta esse verso afirmando que nem a experiência poética com a palavra e nem a experiência pensante com o dizer trazem para a linguagem a linguagem em sua essência[1]. Já o crítico cultural Slavoj Zizek propõe uma tradução desse verso para o paradigma de Lacan da seguinte forma: “onde o portador da representação (faltosa) falhar em intervir, nenhum objeto por ser elevado à dignidade de Coisa.”[2] De qualquer forma, os dois concordariam que somente quem já compreendeu é que poderá escutar. É nesse sentido que o filme de Ozu realiza esse verso de Stefan George, ao pedir que seja mais ouvido do que visto. Há a todo momento uma expectativa do próximo ato, que pode estar logo ali na cena seguinte. Contudo, Ozu é dos cineastas que mostra escondendo – nada parece tão cotidiano quanto as tomadas de atividades sem atos.

Há sempre um instante (“Augenblick”[3]) em que as palavras não bastam, e o lugar infantil como portador desse silêncio no filme contrasta o adulto e a criança. Mas não se deve imaginar que esta seja uma película de um olhar nostálgico sobre a infância. A nostalgia é sempre um olhar para um objeto que se olha sobre si mesmo, uma espécie de leitura de algo que já se lê. Ao contrário, não há nenhum olhar de um adulto lembrando-se de quando era criança. Praticamente sempre que se vê um adulto de pé, a câmera o observa da altura dos olhos de uma criança. O efeito na verdade é de uma reflexão (no sentido literal da palavra) da imensa magnitude dos atos (ocultos) sob as palavras (banais?).

O cinema japonês, e oriental em geral, é conhecido por seus exageros nas encenações. Nada disso acontece aqui. Tudo é contido, suave, sem ornamentos demasiados. E nada é escondido. Voltando a Heidegger: “a comunicação das possibilidades existenciais da disposição, ou seja, da abertura da existência, pode-se tornar a meta explícita do discurso ‘poético’”[4]. E por mais que neste filme de Ozu muito do diálogo se constitua a partir do discurso “padrão”, de um certo “falatório” (não entender de forma alguma no sentido pejorativo), é exatamente nessas palavras tão “desgastadas” que algo se abre, que algo desabrocha sem que nunca um sentido se materialize.vlcsnap-189354

É notória a fixação dos japoneses com as embalagens, os pacotes, esse invólucro que “faz recuar a descoberta do objeto que contém – e que é frequentemente insignificante, pois é precisamente uma especialidade do pacote japonês que a futilidade da coisa seja desproporcionada ao luxo do invólucro: um docinho, um pouco de pasta de feijão açucarada, um souvenir vulgar (…) são embalados com tanta suntuosidade quanto uma jóia.”[5] Da mesma forma, em Bom-dia há essa mesma lógica. Mesmo um simples “sim” é cuidadosamente embrulhado num “pacote” de sentido que faz o espectador descobrir o cuidadosamente escoado pelo tempo. Aqui não há nenhum vazio “niilista-negativo” ocidental, nada além de um traço de pincel em cada fotograma, firme e seguro. Dentro da embalagem, a surpresa. Mas o conteúdo não é “irrelevante”? Então trata-se de uma surpresa da surpresa. Os japoneses têm um termo que é “omiyagi” – a tradução souvenir não parece muito satisfatória, e mesmo Barthes parece se enganar aí. De qualquer forma, é um presente que se costuma comprar para todos os conhecidos quando se faz uma viagem. O brasileiro não tem esse hábito, é algo bem diferente da “lembrancinha”. Trata-se antes, se for possível fazer um pouco de antropologia especulativa, de uma maneira de atestar a própria surpresa de se ausentar perante aqueles que constatam que a ausência, como o presente, é um logro brincalhão do tempo.

O tempo no filme de Ozu transcorre como um córrego, às vezes rodopiando ao redor de uma imagem. O professor de inglês dos meninos, Heichiro (Keiji Sada) se envolve romanticamente com a tia deles, Setsuko (Yoshiko Kuga), mas a própria expressão “envolver romanticamente” parece ocidentalmente pesada. Na verdade, há algumas palavras trocadas, algumas gentilezas, uma espera na estação do trem – tudo está dito sem ter sido dito.

Há uma belíssima peça chamada “Nishikigi”, composta por Zeami, análoga a muitos pontos aqui. Essa peça segue a estrutura de muitos espetáculos Nô, onde há um padre (Waki), um herói (Shite) que é o fantasma da noiva e também a amada (Tsure) – esses dois ainda não se reuniram. E há, naturalmente, um Coro. Aqui, como em Ozu, a presença mágica, poética, sobrenatural não pede palavras grandiosas. Um exemplo: o padre, sem perceber a natureza do casal comenta que a senhora tem um belo tecido ornado. A mulher responde simplesmente dizendo que o pano se chama “Hosonuno”. Uma conversa banal transfigurada pela relação mágica, um pedaço de cotidiano que olha de volta – como em Jeremias 5:21 – e uma sobriedade para que o quase-imperceptível permaneça em sua abertura de potência, de possibilidade. No final dessa peça os três últimos versos do Coro para o padre (que dormiu na caverna onde habitavam os fantasmas e que com essa respeitosa visita livrou-os de seu fardo), evocam a moderação no uso da linguagem, moderação imprescindível para tratar desse centro oco nas palavras.

Não há nada aqui além desta caverna no meio do campo.

Hoje o vento balança nos pinheiros;

Um lugar selvagem, sombrio e deserto.[6]

Igualmente em Ozu o vento balança, mas nas casas dos subúrbios japoneses, e no meio desse campo nada além de uma caverna onde o Ser pode se abrigar, para dizer novamente como Heidegger, ou onde o próprio nada tornado palavra vaga por um lugar “selvagem, sombrio e deserto”.


[1] HEIDEGGER, Martin – A caminho da linguagem. Ed. Vozes, 2003. p. 144.

[2] ZIZEK, Slavoj – Enjoy Your Symptom! Routledge, 2008. p. 194.

[3] Segundo a tradutora Marcia Sá Cavalcante Schuback, que verteu Heidegger para o português, o termo alemão “Augenblick” diz respeito à visão de um piscar de olhos, sentido do qual deriva e se concentra a dinâmica de uma unidade. V. notas de Ser e Tempo Parte II.

[4] HEIDEGGER, Martin – Ser e Tempo. Ed. Vozes, 2002. p. 221.

[5] BARTHES, Roland – O império dos signos. Martins Fontes, 2007. p. 60-61.

[6] Tradução do Nils a partir da versão em inglês de Ezra Pound. V. FENOLLOSA e POUND – The Noh Theatre of Japan. Dover, 2004. p. 149. Quem sabe se pela L-Dopa não se publicam algumas traduções de peças de teatro Nô?

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2 Comments

  1. Achei magnífico seu post sobre “Bom Dia”, de Ozu. Assisti o filme recentemente, mas confesso que minha falta de bagagem e conhecimento prévio de mundo não me permitiram ir muito além na interpretação desse filme. “Bom Dia” me entreteu através da fofura do menininho (que vivia repetindo “I Love You”). Realmente não havia me dado conta desse significado das palavras e do silêncio e tudo mais. Parabéns por este post, está ótimo!

    • Valeu Romulo! E se você gosta de assuntos nipônicos não deixe de ler a novela do Ryunosuke que estamos fazendo. Obrigado!


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