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1.

Cicloativismo e Crítica Urbana

É no sentido ideológico que se deve entender o urbanismo atual. O habitar é hierarquizado, e consequentemente a circulação também. Se “o homem habita como poeta”, então o urbanismo apenas esquadrinha o espaço. O tempo de transporte está intimamente ligado ao tempo de produção. O tempo-agora como direito de gozo do indivíduo encontra-se contraposto ao espaço alienado do pseudo-gozo. Na medida em que grupos passam a criticar praticamente esse urbanismo, são colocados em movimento, por parte do centro do poder, os Aparelhos Repressivos de Estado. Quanto à ideologia, os apelos pela educação como solução para o trânsito brasileiro, embora constatem as causas da tragédia, não enfrentam sua origem. Isto é, do poder se origina uma centralidade que pensa o urbano e um urbano pensado centralmente. O que circula é transportado para ser trocado. É na cesura entre esses dois elementos que o cicloativismo traça um território tanto físico quanto mental – um outro urbanismo.

2.

Há um estranho rio que percorre os dias, os meses, instantes alegres e tristes sem distinção. Isso que de algum modo leva consigo o que se experimentou e é só de cada um, que movimenta as águas. Há algo ali que diz às palavras como ocorrerem; que pede aos olhos olharem para cá, ou para lá; que faz de cada sonho algo inconfundivelmente individual, mesmo que brote do solo inesgotável do inconsciente de toda a espécie.

E assim, sinuoso, serpenteante, tortuoso, o rio contém cada pensamento que lhe atiramos, ou que nele confiamos, como um Moisés em cesto de juncos. Corra para este lado, corra para aquele, não há fluxo de águas que não murmure, por mais leve que seja. E dessa forma não há quem não possa, se der-se ao trabalho de se curvar ao silêncio da natureza, ouvir a própria correnteza.

3.

O conto The Things They Carried, de Tim O’Brien, é a história do tenente Jimmy Cross e seu esquadrão na guerra do Vietnã. the-things-they-carried-soldadosCross carrega cartas que uma garota lhe escreve, e embora saiba que não há nada entre eles, fantasia que sim. Isso acontece até que um de seus homens é morto. A partir desse instante, o tenente queima todas as suas cartas e fotografias, decidido a cumprir suas obrigações.

O que torna o conto formalmente transparente é a recorrência das descrições das coisas que “eles carregavam” em meio às missões. Henry Dobbins carregava pêssego enlatado, Dave Jensen vários sabonetes que havia roubado de um hotel na Austrália etc. O tema volta quanto ao armamento: Henry Dobbins carregava uma M-60 de 10,5 kg etc. Por fim o tema vai se tornando cada vez mais abstrato: “Eles carregavam o maior medo do soldado, que é o medo de se envergonhar.”

Esquema 1 - Significante/Sujeitos Interior

Esquema 1 - Significante/Sujeitos Interior

Esquema 2 - Significante/Sujeitos Externo

Esquema 2 - Significante/Sujeitos Externo

Quando o tenente Jimmy Cross queima as cartas que ele carregava de dentro da guerra, a situação se desenvolve para o fato de carregar a carta na guerra (mas a partir de seu exterior). Na ficção como na vida há passagens de momentos em que um significante (S) está ligado a sujeitos (A, B, C) pelo interior (1) e momentos em que esta relação significante-sujeito se dá pelo exterior (2).

Passagem de 1 para 2 – A Metamorfose de Kafka. O significante “transformação” já surge dentro, inexplicavelmente, e só desaparece e “vai para fora”com a morte do sujeito.

Passagem de 2 para 1 – A Odisséia de Homero. O significante “pátria” está fora do círculo, distante, e só “entra” quando finalmente os pretendentes são massacrados.

É possível desenvolver toda uma tipologia ficcional e partir do interior/exterior.

4.

O colecionador conhece mais do tempo heterogêneo da história do que o pedante que supostamente sabe tudo das últimas tendências. Este está algemado ao tempo sempre novo e sempre igual da mercadoria, cujo único predicado é ser passível de troca. Perseguir a história na moda é como perseguir a própria sombra com o propósito de deitar-se nela para dormir – sono que nunca vem.

Para o colecionador, por sua vez, o tempo em que habita é o tempo das relações, onde cada elemento adquire sua singularidade pela junção com outros elementos. O disco, o selo, a moeda, a citação – cada um desses fragmentos de mosaico é combinado e mais uma vez combinado. Assim, a história se revela sempre uma potência nova. Nesse sentido, o colecionador guarda muita semelhança com o tradutor: o ato de relacionar aponta para algo que subjaz, algo desconhecido no processo, e que se revela não na completude, mas na hora fatídica, isto é, no momento histórico.

Também um ensaísta se assemelha a um colecionador. Aquilo que ele coleciona são partes do objeto ensaiado, com as quais ele tentará construir uma unidade. Essa unidade é impossível e imprescindível. À realização dessa unidade corresponderia à consciência imediata da idéia, e não sua representação. À desistência dessa unidade corresponderia um mutismo complacente perante os fenômenos, e não seu comentário. A subjetividade do ensaísta já se manifesta microscopicamente. E a composição do texto a partir desses elementos, sua ficcionalização, tece conceitos únicos tendo por fios desejos de tempos diferentes. À fantasia que o conceito carrega, e não à sua suposta autoridade, corresponde o fascínio que o texto exerce.

5.

A questão do último post era saber quantos personagens há na peça de teatro Him de E. E. Cummings. A resposta é 105. Isso mesmo, 105 personagens numa única peça. Bem, lá vai mais uma tradução (Nils) de um soneto dele.

6.

quando a cobra pagar pra rastejar

e o sol entrar em greve pelo mínimo–

quando houver suspeita entre a rosa e o espinho

e o arco-íris poupar pra se aposentar

quando o tordo cantar pra lua nova

se os mochos não cortarem-lhe a eloqüência

e as ondas assinarem a prova

de que o oceano não irá à falência

quando a fruta do roble subjugar-se ao

vidoeiro vales acusarem o cimo

das montanhas de ser alto – e março

denunciar abril por terrorismo

então iremos acreditar nessa fantás

tica humanormalidade(e não antes)

7.

O romance “Coração”, de Natsume Soseki já havia sido traduzido (e registrado) no ano passado. Uma outra tradução foi lançada esta semana pela Editora Globo. Isso não é de forma nenhuma algo ruim, apenas leva a deixar o texto na adega em barril de carvalho.

Em mais uma nota, o livro “No Café” de Errico Malatesta já está traduzido e encontra-se sob escrutínio. O livro traz 17 diálogos ambientados num café da Itália pré-Primeira Guerra que tratam da perspectiva anarquista.

O livro de contos de O’Henry já está sendo revisado pela Sabrina. O passo seguinte é a diagramação. Previsão: fevereiro.

A pergunta do vale-marcador-de-livro: qual é o site (se é que existe) da editora Liveright Publishing Corporation (NY)?

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4 Comments

  1. Valeu Sabrina!

  2. Valeu Sabrina = um Marcador de Página?
    Que expectativa!

  3. Este soneto é para a Sabrina,
    Que descobriu valiosa informação.
    E com bom humor ela nos ensina,
    A trilha do Cummings do coração.

    Ganhará um marcador amarelo
    Ou um vermelho caso assim prefira.
    À sobrinha dará o prêmio belo
    E rirá desta minha pobre lira.

    Ah! Quem me dera houvessem mais Sabrinas!
    E menos seriedade no soneto.
    Se acaso versejo para as meninas,

    Me sinto bufo feito um Rigoleto.
    Mas as mulheres mais nobres e finas
    Sobrevivem ao mais tosco verseto.


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