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1.

if i have made,my lady,intricate

imperfect various things chiefly which wrong

your eyes(frailer than most deep dreams are frail)

songs less firm than your body’s whitest song

upon my mind–if i have failed to snare

the glance too shy–if through my singing slips

the very skilful strangeness of your smile

the keen primeval silence of your hair

–let the world say “his most wise music stole

nothing from death”

you only will create

(who are so perfectly alive)my shame:

lady through whose profound and fragile lips

the sweet small clumsy feet of April came

into the ragged meadow of my soul.

***

se fiz,senhora minha,intricado

e imperfeito muito que ofendeu

teus olhos(frágeis tais frágeis sonhos fundos)

canções menos firmes que a alva canção do teu

corpo no meu gênio–se não pude surpreendê-lo

o olhar muito tímido–se por minha melodia

escapa o próprio hábil pasmo de teu sorriso

o silêncio vivo e de outrora em teu cabelo

–que diga o mundo“seu canto mais perfeito

nada roubou da morte” –

tu terás criado

(que és tão perfeitamente viva)minha vergonha:

senhora por tua boca profunda e fugidia

veio a pegada de Abril risonha

no prado esfarrapado do meu peito.

[E. E. Cummings, poema do livro Is 5 – trad: Nils Skare]

2.

Moeda falsa e sem nenhum lastro, pode ser que o lembrar a nada sirva ou domine, e a parca economia que guarde possa a qualquer momento evaporar. Vão-se os anos, vão-se os segundos, e quem eram estes que foram ninguém sabe. Mais teria valido trocar as riquezas por alguns espelhos, e o espelho é riqueza muita, se é possível se enxergar nele. Podem os demônios, podem os anjos, quem foram estes que voaram não se sabe. E se alguém trocasse ao menos tais moedas por alguma quinquilharia feia, e se enfeitasse para a dança última – a alma vale um ornamento?

Esse lembrar é o tilintar das moedas. Aguça a cobiça, mas sendo falsas, forjam só o engano e o crime. É perigoso que alguma dessas lembranças traga em si algum ouro verdadeiro. Denotariam pois real brilho, algum passado escondido em tesouro. Porém que lembranças seriam essas? Ninguém consegue ao certo distinguir, como um homem rico em tolices, cercado de luxo do mais supérfluo, que não consegue um copo de água. Desertos são muito mais abundantes do que a sede, ou a água, ou ambos. Aí enterraria cada um o seu ouro, e talvez o que fosse verdadeiro pudesse se transmutar num oásis.

A pá com que enterrariam esse lembrar está devidamente enferrujada. O sol do fim faz suar em bicas. E se uma nuvem acaso o cobre, é o acaso, e não alguém, quem quis. A pá parece extremamente frágil. A pá dos nomes cava a areia fina e quente com que o verbo fez seu lar. Quem souber ler o mapa do tesouro achará uma pilha de insanidades, e o ínfimo do ínfimo ouro. Até que então consiga separá-los, terá virado o deserto em mar.

3.

supercomputer

A máquina é o oráculo moderno por excelência.

4.

No filme coreano Old Boy (2003), que traz o ator Choi Min-sik no papel de Oh Dae-su – um executivo coreano que é seqüestrado e preso durante quinze anos numa espécie de quarto de hotel, sem saber a razão – há pelo menos quatro cenas dignas de nota, especialmente pela maneira como podem ser juntadas.

A primeira cena aqui é a que Mi-do, o par romântico, falando sobre solidão para Oh Dae-su, aparece num metrô e delira que vê uma formiga gigante (1). A segunda cena acontece cronologicamente antes da primeira – é quando Oh Dae-su olha para o braço e vê formigas saindo de dentro de si mesmo (2). A situação seguinte, na verdade, diz respeito a todas as cenas em que o telefone celular de Oh Dae-su toca com a música “pavloviana” que escutava durante sua prisão (3). A última cena, finalmente, é aquela em que o protagonista corta fora a própria língua (4).

Todos esses elementos podem ser abordados pelo fluxo da linguagem.

Oldboy - CENA 1

Oldboy - CENA 1

(1) Na primeira cena dessa seleção, Mi-do diz que várias pessoas solitárias alucinam com formigas. A explicação é sugerida: formigas são animais sociais, um “complemento” fantasioso do solitário. Ao mesmo tempo, passando o eixo da linguagem por essa cena, o “animal gregário” e a linguagem surgem numa intersecção. Para se relacionar com a linguagem é preciso outros e para se relacionar com outros é preciso a linguagem. Surge a voz.

(2) O delírio de Oh Dae-su com as formigas também diz respeito à linguagem e à relação social – mas no caso desse, é impossível romper a solidão que o cerca.

Oldboy - CENA 2

Oldboy - CENA 2

Afinal, está fisicamente enclausurado. Por isso as formigas surgem em grande número, ao contrário do delírio de Mi-do onde só há uma. No delírio dela, é a formiga que se tornou humana. No delírio dele, é ele quem se tornou formigas, um formigueiro de centenas de partes esquizofrênicas – o ego estilhaçou. A voz que daria unidade ao sujeito se traduz numa visão delirante.

Oldboy - CENA 3

Oldboy - CENA 3

(3) Quando o telefone celular de Oh Dae-su toca, é a mesma melodia que, no seu cativeiro, era associada ao gás que lançavam para ser entorpecido. Aqui a percepção é afogada pelo passado, cuja voz hipnotiza e põe o sujeito para tropeçar em círculos. O mundo tal como ele pode ser visto, “empiricamente”, sofre o comando de uma ordem obscena. A linguagem se torna incantatória – no mau sentido.

(4) Na cena em que Oh Dae-su corta fora a própria língua, a vingança de Lee Woo-jin se realiza plenamente – uma voz suplanta a outra voz. Ao ponto em que as duas têm que ser destruídas.

Oldboy - CENA 4

Oldboy - CENA 4

Woo-jin não pode existir tendo realizado sua vingança. Sua voz existia apenas para impor-se à de Dae-su. E esse, por sua vez, não pode ter uma voz própria, porque ela foi aniquilada não só simbolicamente como na realidade. Depois disso a linguagem se perde rumando infinitamente ao núcleo traumático do incesto.

Esses quatro componentes podem ser reunidos num pequeno esquema, em que a linguagem passa por duas retas paralelas que determinam a área da audição e a área da visão. Os quatro pontos correspondem às quatro cenas. Inicialmente a linguagem vem do desconhecimento total (expresso no filme por Oh Dae-su segurando o homem pela gravata no topo do prédio e dizendo que vai “contar sua história”, calcada na ignorância da razão de seu aprisionamento – o personagem pouco sabe e o espectador ainda menos) até que, percorrido esse circuito, volta-se novamente ao esquecimento (proporcionado no filme pela hipnotizadora que apaga o trauma de Oh Dae-su – o personagem esquece mas o espectador não).

Esquema interpretativo - Oldboy

Esquema interpretativo - Oldboy

5.

Vê-se um acidente de trânsito. Não é presenciado exatamente, apenas se observa o tumulto e a chegada da ambulância. Um gemido apenas, por parte do motoqueiro caído no chão, é a experiência direta que se tem daquela dor. Em poucos instantes a multidão se dispersa.

E amanhã? Não haverá o risco de que a inteligência se acidente em algum lugar do percurso? Ninguém observará o desastre, apenas ficarão sabendo – por terceiros, como cumpre. A comunidade das mágoas não se pronunciará. Pouco sabem os motoqueiros que se vê que aludem à fragilidade da consciência. Quando do acidente inevitável, a multidão dos sentimentos se dispersará com o vento.

6.

Não causa espanto que a arte seja menos compreensível que a loucura, já que a arte é um mistério de mistérios, e a loucura é apenas um mistério da consciência. Todavia, há algo de compreensível na beleza e de ilusório no delírio. A morte desvenda alguns dos mistérios da arte, descortina a fragilidade da consciência e torna patente também a precariedade daquilo que foge ao discernimento. Pois mesmo a loucura é volátil, e onde está logo não está mais. Liga-se à arte assim como os ponteiros dos segundos se ligam à idéia de eternidade.

7.

A resposta ao enigma do post anterior: o estilo de escrita naquela imagem é o soshô, estilo cursivo dos ideogramas chineses que foram em parte responsáveis pelo surgimento do hiragana japonês. Quanto ao Coração de Natsume Soseki, algumas coisas foram remanejadas. Em outras palavras, é possível que outros textos fiquem prontos antes, em especial No Café, de Errico Malatesta. Brinton e seu posfácio continuam sob análise. A pergunta para o próximo post: na peça de teatro Him, escrita por E. E. Cummings (o sujeito do poema no começo), quantos personagens há?

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