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1.

O enigma do último post: o livro na imagem é a Enciclopédia de Hegel, e a anotação na margem, que diz “que asneira!”, é de ninguém menos que Schopenhauer. Enquanto isso, os 8 contos de O’Henry já se encontram finalizados, com apresentação e ilustrações. O texto finalizado de Maurice Brinton está sendo analisado. O próximo na lista das finalizações até o Natal é o romance Coração de Natsume Soseki.

2.

Fantasia Chinesa

Há séculos havia na China um homem que morava dentro de um poço seco. Toda manhã, através de um balde içado por uma cordinha, baixavam-lhe uma tigela de arroz e uma tigela de água. Toda vez, com seu chinês desdentado, agradecia a água e o arroz, e passava o resto do dia e o comecinho da noite em profunda meditação.

A vila onde morava – e, de certo modo, morava – era pequena, e nem mesmo o último mapa, confeccionado a mando do último imperador, a incluía ou fazia menção, sequer, de seu nome.

Quando o homem decidira viver no poço, era um jovem robusto capaz de carregar quatro sacas grandes de arroz. Agora, já velho, era tido como santo, ou louco; porém, como a vila já se habituara a ele, ninguém lhe dava especial atenção.

letras_pocoUm dia, emissários do rei passaram pela cidade, talvez organizando um mapa mais recente; em todo caso, ficaram hospedados na vila, e tomaram interesse pela história do velho no poço.

“Por quê este velho mora dentro do poço?” – quiseram saber.

“Ele reza pelos espíritos.” – disse o dono da estalagem.

“Ele expia um crime hediondo.” – disse o soldado.

“Ele procura esquecer um antigo amor.” – disse a mulher do taverneiro.

“Ele é um furioso que encontrou sua prisão.” – disse o médico.

Com a pergunta dos emissários do rei, ficou claro que cada um tinha sua opinião. Da mais banal à mais esdrúxula, cada um tinha a sua, e logo, também, começou a formar-se o dissenso. Cada qual, convencido de saber a razão que levara o velho a instalar-se no poço, ia até a beirada para tentar puxar-lhe assunto.

“O senhor reza pelos espíritos, não é?” – perguntou o dono da estalagem. “Reze pelo espírito de meus pais, que já se foram.”

“Você é um criminoso, não é?” – inquiriu o soldado. “Pois eu espero que você apodreça aí para sempre.”

“O senhor tem o coração partido, não é?” – perguntou a mulher do taverneiro. “Saia daí e esqueça essa antiga paixão.”

“Você é um bruto perigoso, não é?” – indagou o médico. “Acho melhor você ficar aí onde é seguro para todos nós.”

Com a chegada da noite, os emissários do rei foram se instalar e toda a vila foi dormir, esquecendo o tumulto. Só o homem no poço, perturbado com todo aquele falatório, não conseguia dormir.

Foi então que a lua surgiu, cheia, prateada, brilhante, exatamente na boca do poço. O homem falou assim:

“Ah, lua, lua querida, eu que aqui morava agora sou objeto do interesse de todos, que vêm falar tudo o que acham de mim. Amanhã, com certeza, os emissários do rei mandarão me tirar daqui, e então, o que farei? Já nem mais me lembro por que entrei aqui, onde vivo em paz. Que farei?”

A lua então lhe disse:

“Não se preocupe. Tua solidão terá fim e todos receberão o que merecem.”

Naquela noite, choveu como nunca havia chovido.

De manhã, a vila inteira, sobressaltada, correu até o poço. Ao olharem para baixo, refletidos na água, cada um viu seu próprio rosto.

Quanto ao velho, dizem alguns que morreu afogado. Mas os que sabem mais dizem que é ele quem esconde a lua nova, no negro poço do céu.

[Nils Skare – 2006]

3.

O filme Death Race 2000 (1975) traz como argumento um futuro totalitário nos Estados Unidos onde o esporte nacional – à moda do “pão e circo” romano – é uma corrida de carros cujo objetivo é matar pedestres. Cada participante é uma figura estereotipada, como no desenho da Corrida Maluca. Todos com a exceção de um, o corredor chamado Frankenstein (David Carradine). Todos acreditam que esse personagem possui inúmeras queimaduras, cicatrizes, fraturas e por isso se esconde atrás de uma máscara. De qualquer modo, toda máscara é mediadora entre duas forças: a força do que ela representa e o portador que a manipula. No caso desse personagem, a máscara media claramente a morte e o sexo. Não exatamente pela aparência S&M dela, mas pelo exterior fragmentado (os diversos pedaços de que ele seria montado) em oposição à sua unidade interior. Os outros personagens, os estereótipos, seriam claramente loucos, já que expressariam acreditar numa identidade deles consigo próprios.

Frankenstein e seu carro

Frankenstein e seu carro

(O que é um mendigo que se acredita um rei comparado a um rei que acredita que é um rei?) Mas de fato Frankenstein não é deformado à moda de um monstro. O que ele esconde é um lugar de humanidade, e não por acaso, o personagem de Carradine e sua navegadora Annie (Simone Griffeth) são o único casal que o filme mostra em situações eróticas.

É possível identificar um fenômeno em um evento como o Salão do Automóvel de Curitiba 2008[1], que pode ser aplicado a esse filme. Esse fenômeno é composto de um paradigma (P), de um objeto-causa de desejo (a) e de três níveis de significantes (p, m, G). No salão do automóvel o paradigma é o automobilismo. O objeto-causa do desejo é a mercadoria, isto é, os carros. Os significantes (econômicos no caso do salão) se agrupam em três níveis: as “mulheres sensuais” ao lado do carro, que te passam para os vendedores, que por sua vez te encaminham para os gerentes.

Quanto ao filme, o espaço do objeto-causa do desejo (o que Lacan chama de objeto pequeno a) continua sendo ocupado pelo carro, mas na articulação do primeiro nível, que é o sexo (as “mulheres sensuais” – o carro como símbolo de virilidade), ocorre a associação com a morte (os pedestres a serem atropelados que valem pontos – o carro como símbolo de destruição). No segundo nível, onde estariam os vendedores, estão os repórteres.

Esquema conceitual

Esquema conceitual

A diferença, é claro, é que é possível dialogar com um vendedor para obter informações, ao passo que no filme o repórter é retratado para o espectador na unilateralidade de seu discurso (por isso o erro dos rebeldes no filme, ao transmitirem uma mensagem pirata pela televisão, é de ingressarem nessa mesma atividade ao invés de buscarem um ato). No terceiro nível, ao invés dos gerentes, estão os competidores da corrida. Mas se no nível dos gerentes há sempre uma decisão (de compra), no caso dos corredores do filme – com a exceção de Frankenstein – o que viceja é a banalidade. Observar os personagens estereotipados, principalmente “Machine Gun” Joe (Sylvester Stallone, em início de carreira) atropelar as pessoas é como observar um gesto mecânico, repetitivo, cujo prazer é logo frustrado pela obrigação de ser medido em pontos. É possível então propor o paradigma do filme: a guerra. Seu conteúdo pode ser: a guerra faz carros. É a crítica mais contundente do filme, e nem um pouco evidente. Essa formulação é o exato oposto de um filme blockbuster como Transformers (2007 – US$ 320 milhões), onde carros se transformam em robôs para lutar contra outros robôs, cuja mensagem implícita é que carros fazem guerra.

4.

Bilboquê - pintura do século XVII

Bilboquê - pintura do século XVII

O tópico da repetição foi abordado no post passado, especialmente em sua relação com o lúdico, e merece ser retomado. Fala-se atualmente de uma supressão da perspectiva histórica pela lógica pós-moderna da nostalgia. Um antídoto a essa visão é a concepção de história de Walter Benjamin. Para ele, tanto a historiografia “burguesa” quanto a “progressista” se constroem sobre uma concepção de um tempo homogêneo. O historiador benjaminiano precisa descobrir no passado as sementes de uma outra história. “Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.”[2]

O historicismo consiste em ver de uma distância metalingüística bastante segura, e em construir uma “história linear”, que evolui. No caso da nostalgia pós-moderna, o que “fascina” é o olhar “ingênuo” que mergulha na imagem do passado perdido. Nos dois casos, a lógica da queda. Slavoj Zizek – que relaciona a visão histórica de Benjamin e com a de Kierkegaard – traça por fim um comentário importante sobre a imagem nostálgica, ao afirmar que ela esconde o núcleo traumático a-histórico, que volta como o Mesmo em todas as épocas históricas[3].

Voltando ao caso dos brinquedos, do último post, quais “núcleos traumáticos” são possivelmente destacáveis da experiência – classe, raça, cultura? E quanto ao núcleo traumático original da experiência humana, isto é, à divisão dos sexos?

5.

(O gentil leitor e a distinta leitora devem estar se perguntando qual é o enigma desta quinta-feira. É simples. Qual o tipo de letra na história do chinês do poço? Não é preciso dizer o que está escrito, basta dizer o tipo da letra. O vencedor leva um marcador de página).


[2] BENJAMIN, Walter – Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense. 1996. p. 224.

[3] Cf. ZIZEK, Slavoj – Enjoy your symptom! New York/London: Routledge. 2008. p. 94.

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2 Comments

  1. Lindo conto! Essa China é um lugar da imaginação alemã?

    E a idéia de “núcleo traumático”, é de quem? Já vi em um texto sobre historiadoras que apanhavam dos maridos e escreviam sobre rainhas – e seus inúmeros brinquedos. A elencatória do luxo caracterizava a escrita traumática. Não sei se vou longe com essa preguiça de Lacan.

    Sabrina.

    • O “núcleo traumático” é aquilo que não consegue ser simbolizado.

      É interessante você notar que a elencatória (um tipo de repetição), esteja ligado a uma escrita traumática.
      Penso imediatamente no “Aleph” de J. L. Borges. Quando o Aleph é finalmente visto, no décimo-nono degrau da escada, ele é retratado em sua infinitude através de uma lista. “Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um roto labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando em mim como num espelho (…)” O núcleo traumático aqui é a ameaça do esquecimento, a “trágica erosão” dos traços de Beatriz.

      A China do conto é alemã. Nunca tinha pensado assim, mas agora que você falou, parece incontestável.


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