Uma das linhas na L-Dopa é a publicação de autobiografias, gênero que julgamos especialmente valioso, a ponto de iniciarmos nossas publicações por uma. Um dia desses me deparei com um comentário de Schopenhauer a respeito da importância desse tipo de texto, e o transcrevo aqui para a reflexão do leitor deste blogue.

“Muitas vezes se disse que as autobiografias são pura mentira e dissimulação, mero compêndio de vaidade. Isso é errado. A mentira, de fato, é possível em toda parte, mas talvez em nenhum outro lugar é mais difícil do que na autobiografia. A dissimulação é mais fácil na conversação. Isso parece paradoxal, mas já numa carta é, no fundo, mais difícil dissimular, pois aí quem escreve, abandonado a si mesmo, vê antes o que se passa em seu interior, não no exterior. É difícil para alguém assim aproximar o que está distante e alheio, vendo-o de forma correta. Com isso, ao contrário da conversação, perde-se a medida da impressão que se provocaria em outrem. O destinatário de uma carta, por outro lado, a lê de maneira serena e numa disposição que o remetente não conhece nem partilha; ele lê a carta repetidas vezes, em diferentes ocasiões, com o que pode facilmente desmascarar a intenção secreta. Devido a essa característica da coisa, conhece-se melhor e mais facilmente um autor, também como homem, a partir de seu livro, pois aquelas condições fazem efeito na escritura de um livro de modo ainda mais vigoroso e constante. Por esse motivo, é tão difícil a dissimulação num livro cuja matéria é o próprio escritor – portanto numa autobiografia – que talvez não haja uma única autobiografia na qual, em geral, não exista mais verdade que em qualquer história já escrita.” (Schopenhauer – Metafísica do Belo)

É com pesar que informamos aos leitores deste blogue do falecimento de Howard Zinn, historiador e ativista norte-americano, aos 87 anos de idade. Ele sofreu um infarto e deixa dois filhos e cinco netos.

Zinn – responsável por “uma contribuição incrível para a cultura intelectual e moral americana” nas palavras de Noam Chomsky – é o autor de diversos livros influentes, dentre os quais destacamos A People’s History of the United States, com o qual deu origem a uma guinada pela história radical nos Estados Unidos. Por história radical entenda-se uma perspectiva engajada, longe de “neutralidades” tão postuladas por certas correntes, buscando iluminar as lutas sociais em seus contextos, numa participação verdadeiramente ativa.

Aqui no Brasil, nós da L-Dopa tivemos a oportunidade de editar sua autobiografia, Você não pode ser neutro num trem em movimento (2005). Ficamos igualmente felizes  com as respostas de inúmeras pessoas que encontraram no livro mais do que um simples estímulo intelectual, mas uma experiência de integridade de um historiador engajado e um homem devotado à transformação da realidade social. Irremediavelmente otimista, como ele mesmo se descrevia, esperamos guardar de Howard Zinn a paciência e a tenacidade que o relato de sua vida nos revela possível. Como indivíduos e como editora expressamos nosso débito a Zinn e estendemos nossos pêsames a todos os familiares, amigos e admiradores do autor.

“O que nós enfatizamos nesta história complexa irá determinar nossas vidas. Se nós só vemos o pior, isto destrói nossa capacidade para fazer algo. Se nós nos lembrarmos das épocas e lugares – e existem tantos – onde as pessoas agiram de maneira magnífica, isto nos dá energia para agir, e ao menos a possibilidade de mandar o mundo numa direção diferente. E se agimos, de qualquer maneira – ainda que pequena -, não precisamos esperar por algum grande futuro utópico. O futuro é uma infinita sucessão de presentes, e viver agora como nós acreditamos que seres humanos devem viver, desafiando tudo que de mal existe ao nosso redor, é em si uma maravilhosa vitória.” (Howard Zinn – Você não pode ser neutro num trem em movimento)

Estamos retomando as atividades de 2010, e informaremos o leitor e a leitora de nossos projetos por este blogue.

No momento estamos aguardando as últimas duas capas do “pacotaço”. Faltam as capas de “A Sonata dos Espectros” (Strindberg) e “O Quarto da Claraboia” (O’Henry).

Enquanto isso, o leitor poderá achar interessante este link, que trata da greve dos professores em 1988.

Continuaremos nossas atividades neste blogue a partir da metade de janeiro. Bom 2010 para todos!

Como o gentil leitor e a perspicaz leitora podem notar, este site andou sofrendo algumas alterações. Minha opinião é a de que ele estava muito saturado, e faltava-lhe aquele ar analítico presente em todas as boas famílias.

Agora no topo de nosso cabeçalho nós temos uma opção para acessar facilmente nosso endereço de contato, nosso catálogo e uma página só para os próximos projetos.

Minha intenção é, também com os conteúdos dos posts, tornar o site mais diretamente dedicado à editora de forma clara e simples.

Neste sábado passado (5/12) eu e o Klaus nos reunimos para conversarmos sobre certas diretrizes para o ano que vem. Além de analisarmos maneiras para apressar o andamento da produção dos livros do primeiro “pacotaço” (que ainda estão no processo de diagramação), ficou decidido que os próximos títulos para a produção textual serão: a antologia do Comunismo de Conselho; Conselhos de Trabalhadores de Pannekoek; Marthe de J. K. Huysmans; Walden de Thoreau.

Este último título foi sugerido por nosso amigo Gustavo Scheffer e será uma nova tradução da obra do poeta e filósofo norte-americano. Quanto à antologia eu e Klaus já estamos discutindo um conjunto de textos para comporem a coletânea, que contará principalmente com Pannekoek e Mattick, a julgar pelo andar da carruagem. Sobre os outros títulos farei comentários posteriormente.

O Klaus também está entrando em contato com “experts” no estrangeiro para a elaboração de uma coletânea de textos do grupo inglês Solidarity que inclua textos de outros membros além de Maurice Brinton.

A tradução da autobiografia Vivendo minha Vida de Emma Goldman já está pronta. Será necessário um tempo de revisão para o paciente leitor e a adorável leitora deste site terem o livro em mãos, mas podem ter certeza que é um texto forte e único. Mais informações sobre este e outros trabalhos na semana que vem.

 

 

Emma Goldman

As atividades continuam na tradução da volumosa autobiografia de Emma Goldman – agora falta pouco para que Vivendo minha vida veja sua primeira tradução.

Depois disso ainda serão necessárias revisões para as quais contaremos com a ajuda de nosso amigo Gustavo Scheffer, que já trabalhou conosco no livro do Howard Zinn. A Emma de fato deve levar mais tempo, mas o ansioso leitor e a ávida leitora deste blog podem ficar felizes ao saber que provavelmente Kappa de Akutagawa sairá junto com os livros do “pacotaço”; é possível que até mesmo outros livros ainda saiam antes que a Emma, porém ela está encaminhada.

 

Quanto a este “pacotaço”, estamos acompanhando algumas idéias para a identidade visual dos livros. Isso quer dizer que os livros terão uma espécie de “forma fixa”, uma unidade em seu design que os tornará reconhecíveis como prole da L-Dopa. O Flávio “Bá” (em cujo site Anti-Tudo os leitores podem checar alguns trabalhos) já cuidou da diagramação e capa do Howard Zinn e está agora tratando dessa parte relativa aos novos lançamentos.

E nosso amigo Maikon K. (que mantém os sites Howard Zinn em português e  Vivo na Cidade) está preparando trabalhos cênicos a partir do teatro de Zinn que casarão com os lançamentos.

Pusemos de lado a tradução de Tufão de Joseph Conrad. Mas Marthe de J. K. Huysmans ganhará um projeto de tradução tão logo a Emma esteja traduzida.

E, por fim, uma notícia sem dúvida interessante: na compra de 01 exemplar de Você não pode ser neutro num trem em movimento nós oferecemos o frete de graça à guisa de desconto, ficando então somente R$ 25,00. Escrevam para nosso e-mail – ldopaeditora@gmail.com – para mais informações. Também consideramos descontos para pedidos maiores.

Uma boa semana a todos.

As atividades da L-Dopa continuam.

  • Os 5 livros do “pacotaço” estão sob diagramação em São Paulo.
  • Teremos novidades para a divulgação dos lançamentos.
  • A conclusão da tradução da Emma Goldman está prevista para breve.

Já faz algum tempo que não comento alguns livros lidos por aqui, então estas são algumas resenhas mínimas sobre três dentre os últimos que li.

  • Paul Auster – A Trilogia de Nova York

O gênero de detetive é revisto aqui à luz de uma lógica à la Lewis Carrol. Sim, essa me parece uma formulação bastante sintética para descrever o livro de Auster, mas o autor de Alice no País das Maravilhas ainda é “infantil” demais para dar conta das torções narrativas que o autor destas três novelas imprime ao desenrolar das histórias. Não há nada de propriamente surrealista. Ao contrário, há antes uma outra lógica em funcionamento que prisma o que seriam mistérios de detetive em considerações mais profundas. Como tudo isso fica em aberto, pode-se interpretar a gosto e a “metafísica”, como toda boa metafísica, fica por conta do freguês.

  • William Faulkner – Enquanto Desfaleço

 

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Faulkner

Se você gosta de Steinbeck, irá adorar Faulkner. A morte da matriarca de uma família pobre sulista desencadeia uma longa e dolorosa viagem para enterrá-la. A técnica narrativa empenhada – que consiste em ter cada capítulo descrito por parte de um personagem diferente – acentua o caráter propriamente dramático. Mas o que impacta são as imagens, mais do que propriamente os personagens.  De um jeito ou de outro é difícil saber se a força do relato consiste na história de humilhação e sofrimento ou se na técnica bastante ousada da narrativa. Enfim, nas grandes obras forma e conteúdo não se dissociam, e Faulkner alcança uma unidade bastante difícil.

  • Eduardo Galeano – Dias e Noites de Amor e de Guerra

Eu conhecia Galeano do famoso Veias Abertas da América Latina, que me causou bastante impacto à época. Este Dias e Noites… trabalha a partir da lógica do fragmento com o político e o pessoal, o histórico e o ficcional, amalgamando essas categorias de modo a criar um mosaico de seu tempo. Minha opinião é que é a historiografia radical de Galeano que permite que sua obra detenha força e “poder germinativo”. Ele escreve sobre sua experiência e articula-a a outras (não falávamos do narrador num post passado?) .  O resultado é a história viva, e os efeitos de sua escrita são todos decorrência dessa preciosidade.

 

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